Caso Benício: Coren-AM mantém registro ativo de técnica de enfermagem apesar de suspensão judicial
Caso Benício: Coren-AM mantém registro ativo de técnica suspensa

Caso Benício: Coren-AM mantém registro ativo de técnica de enfermagem apesar de suspensão judicial

A técnica de enfermagem Raiza Bentes Praia, uma das profissionais investigadas pela morte do menino Benício em Manaus, continua com seu registro profissional "ativo" no site do Conselho Regional de Enfermagem do Amazonas (Coren-AM). Esta situação contraria frontalmente uma decisão judicial emitida em dezembro de 2025, que determinou a suspensão do exercício profissional por um ano como medida cautelar durante as investigações.

Divergência no cumprimento da decisão judicial

Uma consulta recente aos sistemas dos conselhos profissionais revelou uma discrepância preocupante no cumprimento da ordem judicial. Enquanto o registro da médica Juliana Brasil Santos aparece corretamente como suspenso, em conformidade com a determinação do juiz Fábio Olintho de Souza, o da técnica Raiza Bentes Praia permanece ativo, configurando um aparente descumprimento da decisão.

O magistrado havia determinado expressamente que o Conselho Regional de Medicina (CRM-AM), o Coren-AM, além das secretarias estadual e municipal de saúde fossem oficialmente comunicados para garantir o cumprimento integral da suspensão. O g1 solicitou esclarecimentos ao Coren-AM sobre o motivo da manutenção do registro ativo da técnica e aguarda posicionamento oficial.

Medidas cautelares impostas às profissionais

A decisão judicial não se limitou à suspensão profissional. As duas profissionais investigadas tiveram outras medidas restritivas impostas:

  1. Comparecer mensalmente em juízo para justificar suas atividades;
  2. Não sair da Região Metropolitana de Manaus sem autorização judicial prévia;
  3. Manter distância mínima de 200 metros da família da vítima e das testemunhas do caso;
  4. Cumprir rigorosamente a suspensão do exercício profissional por 12 meses, período que pode ser prorrogado conforme andamento das investigações.

Reconstituição dos fatos que levaram à tragédia

Benício, um menino de apenas seis anos, faleceu no dia 23 de novembro após receber adrenalina por via intravenosa durante atendimento no Hospital Santa Júlia, em Manaus. De acordo com as investigações em curso, tanto a via de administração quanto a dosagem prescrita não eram indicadas para o quadro clínico apresentado pela criança, que chegou ao hospital com tosse seca e suspeita de laringite.

O pai, Bruno Freitas, relatou em detalhes a sequência de eventos trágicos. A médica prescreveu lavagem nasal, soro, xarope e três doses de adrenalina intravenosa, com 3 ml a cada 30 minutos. A família, preocupada, chegou a questionar a técnica de enfermagem ao visualizar a prescrição, mas recebeu como resposta que o procedimento estava determinado e seria realizado.

"Meu filho nunca tinha tomado adrenalina pela veia, só por nebulização. Nós perguntamos, e a técnica disse que também nunca tinha aplicado por via intravenosa. Falou que estava na prescrição e que ela ia fazer", desabafou o pai em entrevista.

Agravamento rápido e fatal do quadro clínico

Imediatamente após a primeira aplicação, Benício apresentou piora súbita e foi levado às pressas para a sala vermelha. Sua oxigenação despencou para aproximadamente 75%, exigindo o acionamento de uma segunda médica para iniciar o monitoramento cardíaco. A situação era tão grave que rapidamente foi solicitado um leito de UTI, para onde a criança foi transferida no início da noite de sábado.

Na Unidade de Terapia Intensiva, o quadro se deteriorou ainda mais. A equipe médica informou à família sobre a necessidade de intubação, procedimento realizado por volta das 23h. Durante esta intervenção, o menino sofreu as primeiras paradas cardíacas, seguidas por oscilações rápidas e preocupantes na oxigenação.

Minutos depois, Benício apresentou nova piora crítica e não respondeu às manobras de reanimação realizadas pela equipe médica. O óbito foi registrado às 2h55 do domingo, deixando uma família devastada e questionamentos sobre a qualidade do atendimento prestado.

Busca por justiça e prevenção de novas tragédias

"Queremos justiça pelo Benício e que nenhuma outra família passe pelo que estamos vivendo. O que a gente quer é que isso nunca mais aconteça. Não desejamos essa dor para ninguém", declarou Bruno Freitas, expressando o sentimento de milhares de brasileiros que acompanham o caso.

O Hospital Santa Júlia, por sua vez, emitiu nota informando que tanto a médica quanto a técnica de enfermagem foram afastadas de suas funções imediatamente após o incidente. A instituição também realizou uma investigação interna através da Comissão de Óbito e Segurança do Paciente, mas os detalhes deste processo não foram divulgados publicamente.

As investigações criminais continuam em andamento, com a polícia já tendo solicitado a prisão preventiva das duas profissionais. A perícia técnica não encontrou falhas no sistema do hospital, contrariando versões preliminares apresentadas pela defesa. Colegas de trabalho relataram em depoimento que alertaram a técnica sobre os riscos da aplicação intravenosa de adrenalina, mas o aviso não foi suficiente para evitar a tragédia.