Justiça Eleitoral mantém cassação de vereadores por fraude de cota de gênero em Boa Vista
Cassação de vereadores por fraude de cota de gênero mantida

Justiça Eleitoral mantém cassação de vereadores por fraude de cota de gênero em Boa Vista

O juiz eleitoral Jaime Plá Pujades de Ávila rejeitou, nesta quarta-feira (4), os recursos apresentados pelos vereadores Roberto Conceição dos Santos Franco e Adnan Wadson de Lima, ambos do Partido Democracia Cristã (DC), que foram cassados por fraude à cota de gênero nas eleições municipais de 2024 em Boa Vista, Roraima.

A decisão mantém a sentença de primeira instância da 5ª Zona Eleitoral e encaminha o processo para análise do Tribunal Regional Eleitoral de Roraima (TRE-RR), que será responsável por decidir se a cassação será mantida, modificada ou anulada em segunda instância.

Esquema de candidaturas fictícias

A ação eleitoral identificou que o DC utilizou candidaturas femininas fictícias para simular o cumprimento da exigência legal de, no mínimo, 30% de vagas destinadas a mulheres. Os dois vereadores foram cassados em decisão de novembro de 2025, após investigações que revelaram um esquema organizado.

Conforme a decisão judicial, o esquema envolveu:

  • Baixa votação das candidatas femininas
  • Ausência de atos de campanha significativos
  • Movimentação financeira padronizada entre as candidatas
  • Prestação de contas idênticas entre sete das oito mulheres lançadas pelo partido

O juiz destacou em sua decisão: “Observa-se que, das oito candidaturas femininas apresentadas pelo DC, sete obtiveram votações irrisórias […] e as despesas dessas candidatas replicam entre si um modelo padronizado, como se tratasse de um pacote de serviços pré-montado oferecido pelo partido”.

Confissão detalha funcionamento da fraude

Uma confissão anexada aos autos pelo então candidato Ruan Kenobby (também conhecido como Wan Kenobby Cha Costa) detalhou o funcionamento da fraude e afirmou que Roberto Franco e Adnan Lima eram “os idealizadores e cabeças de tal operação”.

O documento revelou:

  • Pagamento mensal de R$ 1.000 às candidatas fictícias
  • Prova de repasse financeiro da conta de Ruan Kenobby para Adnan Lima
  • Menção específica ao caso de Andrea Cordeiro Da Silva, esposa de um funcionário da Câmara Municipal

Ruan Kenobby declarou ao g1: “Recebi com muita tranquilidade essa decisão. No início do processo eu fui inquerido pela Justiça Eleitoral pra prestar esclarecimento, já me coloquei a disposição da Justiça pra poder colaborar e também dizer que realmente houve concordância com o que foi denunciado”.

Consequências jurídicas e políticas

Além da cassação, o juiz determinou:

  1. Cassação do Demonstrativo de Regularidade de Atos Partidários (DRAP) do DC
  2. Anulação de todos os votos da chapa proporcional do partido
  3. Cassação dos diplomas dos vereadores eleitos pelo DC
  4. Recálculo dos quocientes eleitoral e partidário para definir quem assumirá as vagas deixadas pelos parlamentares cassados

Roberto Franco, Adnan Lima e Ruan Kenobby também foram declarados inelegíveis por 8 anos, contados a partir de 6 de outubro de 2024.

A Câmara Municipal de Boa Vista será formalmente comunicada após o trânsito em julgado da decisão.

Reações e contexto

À época da cassação, Adnan Lima afirmou que recebeu “com surpresa a decisão judicial” e que recorreria. A presidente do DC também disse que tentaria reverter a medida.

O g1 solicitou posicionamento do partido e do vereador Adnan Lima, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem. A reportagem também tenta contato com Roberto Franco.

Em paralelo, nesta mesma quarta-feira, a Justiça Eleitoral cassou o vereador Genilson Costa (Republicanos), presidente da Câmara Municipal de Boa Vista, por envolvimento em um esquema de compra de votos e uso de recursos ilícitos durante a campanha de 2024.

Este caso ilustra os esforços da Justiça Eleitoral para combater fraudes no sistema de cotas, mecanismo criado para promover maior participação feminina na política brasileira.