Mercado clandestino de canetas emagrecedoras movimenta R$ 600 milhões no Brasil
O mercado ilegal de canetas emagrecedoras está em franca expansão no Brasil, movimentando valores astronômicos e representando um grave risco à saúde pública. Dados recentes revelam que esse comércio clandestino já alcança a cifra impressionante de R$ 600 milhões, segundo estimativas do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteira (IDESF).
Explosão do contrabando e apreensões recordes
A Receita Federal tem registrado um aumento exponencial nas apreensões desses produtos proibidos. Em 2024, foram interceptadas 2.500 unidades de canetas emagrecedoras ilegais. Já no ano anterior, os números foram ainda mais alarmantes: 30 mil unidades apreendidas, com carga avaliada em mais de R$ 30 milhões.
"As pesquisas têm identificado que se apreende apenas 5% de tudo que passa. Então, este mercado possivelmente é de R$ 600 milhões", afirma Luciano Stremel Barros, presidente do IDESF. Essa estimativa revela a dimensão preocupante do fenômeno que vem se espalhando pelas fronteiras brasileiras.
Rota do contrabando: do Paraguai ao varejo informal brasileiro
A reportagem investigativa identificou que o Paraguai serve como principal ponto de origem desse comércio irregular. A venda ocorre através de múltiplas frentes:
- Negociações a céu aberto em cidades fronteiriças
- Ofertas pela internet com anúncios improvisados
- Campanhas publicitárias enganosas que simulam laboratórios legítimos
Em território brasileiro, o esquema se sofistica com atravessadores que oferecem entregas em capitais como São Paulo e Porto Alegre. Intermediários captam clientes e os conduzem até farmácias clandestinas, onde muitos vendedores garantem que não é necessária receita médica.
As técnicas para burlar a fiscalização incluem o uso de fundos falsos de veículos, pneus e estofamentos para esconder a mercadoria. A orientação dada aos compradores é ainda mais alarmante: alguns vendedores afirmam que o produto pode ser transportado sem refrigeração por até 20 dias, ignorando completamente os riscos de degradação.
Riscos graves à saúde: da síndrome de Guillain-Barré ao óbito
Os perigos desse mercado ilegal vão muito além da questão legal. Casos concretos demonstram as consequências devastadoras para a saúde dos consumidores. Kellen Oliveira, de 42 anos, usou uma caneta emagrecedora vinda do Paraguai e, dias depois, começou a sentir fortes dores abdominais que a levaram à internação hospitalar.
Os médicos diagnosticaram a paciente com a síndrome de Guillain-Barré, uma doença rara e autoimune que provoca fraqueza muscular progressiva e pode paralisar completamente o corpo. Atualmente, Kellen permanece internada na UTI, ilustrando dramaticamente os riscos envolvidos.
"Uma vez que ocorre um efeito colateral, não é possível saber com precisão se ele foi causado pelo medicamento, por outra substância, por um contaminante ou por má conservação", explica Felipe Henning, representante da Sociedade Brasileira de Endocrinologia. "Esses efeitos colaterais podem ser tão severos que podem levar o paciente ao óbito."
Autoridades alertam sobre problemas de conservação e falsificação
Daniel Link, auditor fiscal da Receita Federal, é categórico ao alertar os consumidores: "O brasileiro que compra essas canetas de forma irregular pode ter praticamente a certeza de que está adquirindo um suposto medicamento que chegou ao país sem a devida refrigeração e sem condições adequadas de uso. Ele pode não ter os efeitos esperados ou ainda causar danos à saúde."
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reforça que medicamentos sem registro no Brasil não podem ser comercializados. A única exceção permitida é a importação excepcional por pessoa física, exclusivamente para tratamento da própria saúde e mediante prescrição médica válida.
Medicamentos legítimos versus mercado clandestino
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia reconhece que as canetas emagrecedoras representam um divisor de águas no tratamento da diabetes e da obesidade quando utilizadas corretamente. No entanto, os especialistas enfatizam diferenças cruciais:
- Os medicamentos legítimos são produzidos por laboratórios autorizados pela Anvisa
- Passam por rigorosos testes de qualidade e pureza antes da comercialização
- Exigem prescrição e acompanhamento médico adequado
"São medicamentos muito bons. O grande problema está no uso inadequado, sem orientação médica, e na compra em fontes duvidosas, onde o produto pode não ser aquele, ter qualidade ruim ou estar contaminado", conclui Felipe Henning.
As autoridades de saúde alertam que a busca por soluções rápidas de emagrecimento através desse mercado clandestino pode resultar em consequências irreversíveis, transformando um desejo estético em um grave problema de saúde pública que já mobiliza milhões e preocupa especialistas em todo o país.