Trauma no parto inspira enfermeira a revolucionar comunicação em UTIs da Unicamp
Em 2018, a enfermeira pediátrica Camila Cazissi, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), aguardava com ansiedade o momento de conhecer o rosto do seu primeiro filho, Arthur. No entanto, a realidade foi diferente das expectativas: o bebê nasceu prematuro e precisou ficar internado por dez dias na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) neonatal.
Embora Arthur tenha sido liberado com a saúde totalmente restabelecida após a internação, a forma como a equipe médica comunicou a notícia à mãe deixou marcas profundas. Sem mencionar nomes ou demonstrar empatia, os profissionais simplesmente informaram: "Mãezinha, ele não nasceu nada bem. A gente vai descer com ele para UTI".
"Esse momento foi bem traumático para mim. Foi muito impactante a forma como me trouxeram a notícia", relembra Cazissi, que trabalha na UTI pediátrica do Hospital de Clínicas da Unicamp desde 2011.
Da dor pessoal à inovação acadêmica
A experiência transformou radicalmente a maneira como a enfermeira enxerga a comunicação com famílias em momentos críticos. Seis anos depois, em junho de 2025, ela defendeu sua tese de doutorado com um tema inspirado nesse episódio.
A pesquisa resultou na validação de um caso clínico realístico e na criação de um treinamento inovador, realizado em ambiente que simula uma UTI pediátrica. O programa utiliza atores e um boneco para capacitar profissionais de enfermagem a comunicar notícias difíceis de forma mais estruturada e empática.
O que realmente são notícias difíceis?
Durante seu trabalho e estudos, Cazissi percebeu que muitos profissionais de saúde associam "notícia difícil" apenas à comunicação de um óbito. Porém, ela destaca que situações rotineiras – como informar a necessidade de um acesso venoso, uma intercorrência inesperada ou até mesmo uma alta hospitalar – também podem ser vividas como momentos extremamente desafiadores pelas famílias.
"A intenção é que a gente melhore a nossa assistência, nossa qualidade enquanto profissional de saúde, e que a gente consiga realmente que essas famílias tenham vivências muito melhores e sejam acolhidas", explica a enfermeira.
Metodologia do treinamento: simulação e reflexão
O treinamento desenvolvido por Camila Cazissi foi elaborado com base no protocolo SPIKES, uma ferramenta metodológica amplamente utilizada na área da saúde para guiar a comunicação de notícias sensíveis. A validação do caso clínico envolveu 11 enfermeiros de todas as regiões do Brasil e foi publicada na revista Acta Paul Enfermagem.
O programa é dividido em duas partes principais:
- Videoaulas sobre notícias difíceis, fundamentadas na Teoria da Aprendizagem Significativa.
- Simulação clínica presencial com cenário realístico e atores, seguida de uma sessão de reflexão sobre o desempenho dos participantes.
A primeira edição do treinamento contou com a participação voluntária de 30 profissionais de enfermagem da UTI pediátrica do HC da Unicamp.
Resultados e expansão do projeto
Após a capacitação, os participantes relataram uma compreensão ampliada do conceito de "notícia difícil" e reconheceram o papel fundamental de técnicos e enfermeiros na comunicação com as famílias.
"Eles conseguiram se colocar como profissionais que fazem parte desse momento como responsáveis de dar a notícia difícil", conta Cazissi.
Embora inicialmente direcionado aos profissionais da UTI Pediátrica do HC, a enfermeira afirma que a metodologia pode ser adaptada para diversos cenários hospitalares. "A intenção é que isso alcance outros profissionais também, com diferentes tipos de casos clínicos que a gente pode colocar na simulação", destaca.
Detalhes do protocolo SPIKES
O protocolo SPIKES organiza a comunicação em seis etapas estruturadas:
- Planejar a entrevista em ambiente privado.
- Avaliar a percepção do paciente sobre a situação.
- Compreender o desejo do paciente de receber informações.
- Transmitir a notícia com delicadeza e clareza.
- Acolher as emoções expressadas.
- Resumir e traçar estratégias de tratamento realistas.
Durante o treinamento, os profissionais perceberam que o SPIKES pode ser aplicado em qualquer comunicação sensível, não apenas em situações de fim de vida.
O episódio que mudou tudo
Aos 33 semanas e três dias de gestação, Camila Cazissi entrou em trabalho de parto prematuramente após o rompimento da bolsa amniótica. Após dez horas, Arthur nasceu sem respirar ou chorar.
"No momento que ele nasceu, ele não respirou e não chorou", relata a mãe, que assistiu à equipe médica reanimando o bebê na sala de parto antes de levá-lo para a UTI.
A comunicação abrupta fez com que ela imaginasse cenários mais graves do que a realidade, gerando angústia intensa. "Eu realmente me senti bastante sozinha e desamparada em relação a tudo o que tinha acontecido", confessa.
Refletindo sobre o episódio, Cazissi avalia que a abordagem poderia ter sido diferente: "A médica poderia ter chegado próximo [de mim]. Ela sabia o meu nome, então ela poderia ter falado: 'Olha, Camila, aconteceu isso, a gente fez isso, a gente vai descer com ele para a UTI e lá realmente ele vai receber um suporte'".
Hoje, com Arthur saudável e sem sequelas, a enfermeira transformou sua experiência traumática em uma ferramenta poderosa para humanizar a comunicação em ambientes hospitalares críticos, esperando que outras famílias não vivam a mesma angústia que ela enfrentou.