Morte em lipoaspiração no MA expõe médico sem especialização e entidades não reconhecidas
Médico sem especialização em morte por lipoaspiração no MA

Morte de empresária em lipoaspiração revela falhas na qualificação médica no Maranhão

A tragédia que vitimou a empresária Ariene Rodrigues Pereira, de 37 anos, durante uma lipoaspiração em São Luís, no Maranhão, expõe graves questões sobre a formação e a regulamentação de profissionais que atuam na área de cirurgia plástica no Brasil. O caso, ocorrido na terça-feira, 20 de janeiro de 2026, está sob investigação da Polícia Civil do Maranhão e tem gerado alertas importantes de entidades médicas oficiais.

Detalhes do caso e investigação policial

Ariene Rodrigues Pereira sofreu uma parada cardiorrespiratória durante o procedimento estético realizado em uma clínica particular da capital maranhense. De acordo com informações do boletim de ocorrência registrado pela família, a empresária tinha diagnóstico de hipotireoidismo e fazia uso contínuo de medicação específica para essa condição.

A Polícia Civil do Maranhão confirmou que o caso está sendo apurado pelo 13º Distrito Policial do Cohatrac, que busca esclarecer todas as circunstâncias que levaram ao óbito da paciente durante a intervenção cirúrgica.

Qualificação irregular do médico responsável

O procedimento foi realizado pelo médico Alexandre Augusto Gomes, que nega qualquer tipo de erro médico na condução da lipoaspiração. No entanto, uma verificação junto ao Conselho Federal de Medicina revela uma situação preocupante: o profissional possui registro apenas como especialista em Cirurgia Geral, sem o Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em Cirurgia Plástica.

Este registro é considerado requisito formal e obrigatório para o reconhecimento e o exercício legal da especialidade em território nacional, conforme estabelecido pelas normativas do sistema de saúde brasileiro.

Apesar dessa falta de qualificação formal, o médico se apresenta publicamente como especialista em diversos procedimentos estéticos, incluindo não apenas lipoaspiração, mas também implantes de silicone e abdominoplastias.

Entidades médicas sem reconhecimento oficial

Após a ampla repercussão do caso, duas organizações – o Colégio Brasileiro de Cirurgia Plástica (CBCP) e a Associação Brasileira de Médicos com Expertise de Pós-Graduação (Abramepo) – divulgaram notas públicas em apoio ao médico Alexandre Augusto Gomes.

As entidades informaram que o profissional seria membro titular de suas organizações e destacaram sua participação ativa em eventos científicos nacionais e internacionais, incluindo palestras sobre técnicas de lipoaspiração realizadas no Brasil, Estados Unidos e Paraguai.

Posicionamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica

Em resposta às declarações dessas organizações, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) emitiu um comunicado oficial esclarecendo que tanto o CBCP quanto a Abramepo não possuem reconhecimento legal junto ao sistema que regula as especialidades médicas no país.

A entidade explicou detalhadamente que nenhum documento emitido por essas instituições – seja denominado certificado de especialista ou título de especialista – tem validade jurídica ou administrativa perante os órgãos reguladores.

A SBCP alertou pacientes e profissionais sobre a atuação de médicos vinculados a entidades que se apresentam como sociedades médicas, mas que na realidade não têm reconhecimento oficial pelos órgãos competentes.

Sistema de regulamentação das especialidades médicas

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica esclareceu que o reconhecimento das especialidades médicas no Brasil é definido exclusivamente pela Comissão Mista de Especialidades, órgão formado pela Associação Médica Brasileira (AMB), pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM/MEC).

Segundo a entidade, sua atual gestão, por meio do Departamento Nacional de Defesa da Especialidade (DENADE), está adotando medidas administrativas e judiciais para coibir a atuação de instituições que oferecem títulos sem o respaldo legal necessário.

A formação em Cirurgia Plástica é longa, rigorosa e baseada em critérios técnicos e científicos, afirmou a SBCP em seu comunicado. A tentativa de encurtar esse processo por meio de cursos, eventos ou associações sem reconhecimento oficial compromete diretamente a segurança dos pacientes.

Argumentos da defesa do médico e da clínica

Em nota assinada pelo advogado Lymark Kamaroff, a defesa do médico Alexandre Augusto Gomes afirmou categoricamente que não houve falha na condução do procedimento cirúrgico. Segundo o texto jurídico, a paciente não apresentava contraindicações clínicas para a realização da lipoaspiração e todas as etapas da cirurgia seguiram rigorosamente os protocolos técnicos e de segurança estabelecidos.

A defesa destacou que a embolia pulmonar maciça apontada no laudo de necropsia é uma intercorrência grave e imprevisível, prevista explicitamente no termo de consentimento informado assinado pela paciente antes do procedimento.

Já a Policlínica Ibiapuera, onde ocorreu a intervenção, declarou em comunicado oficial que possui todas as licenças exigidas para funcionamento, conta com infraestrutura adequada e mantinha equipe médica completa durante o procedimento, incluindo anestesistas e cardiologistas de plantão.

A instituição informou ainda que adotou todas as medidas possíveis para tentar estabilizar a paciente após a complicação e expressou profundo pesar pelo ocorrido, lamentando a perda da empresária Ariene Rodrigues Pereira.

Reflexões sobre segurança em procedimentos estéticos

Este caso trágico levanta questões fundamentais sobre a segurança de pacientes que buscam procedimentos estéticos no Brasil. A morte da empresária maranhense destaca a importância crucial de:

  • Verificar a qualificação formal dos médicos através do RQE
  • Confirmar o reconhecimento oficial das entidades que emitem certificados
  • Exigir transparência completa sobre riscos e contraindicações
  • Priorizar a segurança sobre considerações estéticas ou financeiras

A investigação policial continua em andamento enquanto a sociedade médica e os órgãos reguladores reforçam a necessidade de maior fiscalização e conscientização sobre os riscos associados a procedimentos realizados por profissionais sem a devida especialização.