Investigação sobre casos de botulismo após aplicação de botox segue sem conclusão em Minas Gerais
Mais de seis meses após as primeiras notificações, a investigação sobre casos de botulismo iatrogênico em Três Pontas, no Sul de Minas Gerais, ainda não foi concluída. Nove casos foram notificados pela Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais e estão relacionados a procedimentos de aplicação de toxina botulínica, popularmente conhecida como botox, realizados em uma clínica da cidade.
Pacientes enfrentam sequelas graves e dificuldades na rotina
Enquanto o inquérito policial segue em andamento, pacientes que apresentaram reações graves relatam dificuldades para retomar a rotina e cobram respostas das autoridades. É o caso da dona de casa Flávia Helena de Carvalho Moreira, que passou por um procedimento estético em junho do ano passado, com o objetivo de amenizar linhas de expressão e rugas no rosto.
Após a aplicação, Flávia desenvolveu sintomas compatíveis com botulismo iatrogênico, como visão turva, fraqueza muscular e dificuldade para respirar. Ela precisou ficar internada por três dias e afirma que ainda lida com sequelas significativas.
“Tento lavar roupa, mas não consigo estender, sinto muita falta de ar. O olho esquerdo não enxergo muito bem. Do que desceu daqui pro rosto, agora está descendo para a garganta. Posso dizer que recuperei cerca de 70%, mas não sei como vai ser daqui pra frente”, contou a paciente.
Além de Flávia, outros oito pacientes relataram sintomas semelhantes após procedimentos realizados na mesma clínica, evidenciando um padrão preocupante que demanda apuração minuciosa.
Ação judicial antecipada e demora na apuração
Diante da demora na apuração, vítimas já recorreram à Justiça. A advogada Isabela Batista, que representa Flávia e um casal que também pode ter desenvolvido o botulismo, afirmou que ações judiciais foram ajuizadas mesmo sem o encerramento do inquérito policial.
“Apesar de o inquérito ainda não ter sido finalizado, já ingressamos com a ação de duas vítimas. Uma audiência está marcada para fevereiro. Buscamos a reparação pelos danos materiais, relacionados aos gastos desde o procedimento, e também pelos danos morais, principalmente pelo abalo emocional e pela falta de assistência”, explicou a advogada.
A Polícia Civil de Três Pontas informou que o inquérito policial encontra-se em fase final, mas depende do recebimento de laudos periciais médicos, considerados indispensáveis para confirmar se as lesões sofridas pelas vítimas são, de fato, decorrentes da toxina botulínica.
Em nota, o órgão informou que novas informações só serão divulgadas após a conclusão da investigação, respeitando o devido processo legal e o sigilo necessário.
Profissional citado e defesa apresentam suas versão
Segundo as vítimas, os procedimentos estéticos teriam sido realizados pelo cirurgião-dentista Rodrigo Lucarini, de Pouso Alegre, que atendia também em Três Pontas. A clínica do profissional em Pouso Alegre chegou a ser interditada pela Vigilância Sanitária por falta de alvará de funcionamento e alvará sanitário, mas posteriormente foi reaberta.
A defesa do dentista nega irregularidades e afirma que o profissional seguiu todos os protocolos exigidos.
“Embora indesejáveis, essas reações adversas estão previstas na bula do medicamento. O profissional sempre esteve à disposição das autoridades, colaborou com as investigações e comprovou a regularidade do procedimento e da aquisição do medicamento. A defesa acredita que não haverá indiciamento”, declarou a advogada Isla Karolina.
A situação destaca a importância de regulamentação rigorosa e monitoramento constante em procedimentos estéticos, especialmente aqueles que envolvem substâncias potentes como a toxina botulínica, visando proteger a saúde pública e garantir a segurança dos pacientes.