Burnout: Afastamentos por esgotamento profissional disparam 493% em 4 anos
Afastamentos por burnout disparam e pressionam Previdência

A síndrome de burnout, um esgotamento profundo ligado ao trabalho, deixou de ser um mal silencioso para se tornar uma epidemia visível nos números da Previdência Social e na vida de milhares de brasileiros. Dados oficiais revelam um crescimento alarmante, transformando o adoecimento mental em uma das principais causas de afastamento do mercado formal.

Uma crise em números: o impacto financeiro e humano

Os afastamentos do trabalho concedidos pelo INSS devido ao esgotamento profissional e à falta de lazer multiplicaram-se por seis em apenas quatro anos. Conforme informações do Ministério da Previdência Social (MPS), saltaram de 823 casos em 2021 para impressionantes 4.880 em 2024, uma alta vertiginosa de 493%.

O ritmo permanece acelerado em 2025. Somente nos seis primeiros meses do ano, já foram registrados 3.494 afastamentos por essa causa, o que equivale a 71,6% do total de todo o ano anterior. Especialistas alertam, porém, que os números podem estar subnotificados, pois muitos casos são diagnosticados como outras doenças ou atingem trabalhadores informais, que ficam fora das estatísticas oficiais.

O fenônio tem um custo bilionário. As despesas da Previdência com auxílios-doença relacionados à saúde mental passaram de R$ 18,9 bilhões em 2022 para R$ 31,8 bilhões em 2024, um aumento de 68%. Em 2024, o INSS concedeu 472,3 mil benefícios por questões como depressão, ansiedade e burnout, de um total de 3,6 milhões de afastamentos. Em 2025, os transtornos mentais já respondem por 1 em cada 7 afastamentos, se aproximando dos problemas ósseos e musculares, que são a principal causa.

Histórias por trás das estatísticas: do cansaço ao diagnóstico

A empresária e criadora de conteúdo Carla Ramalho, de 34 anos, personifica essa estatística. Durante seu período como gerente de marketing em uma multinacional, sintomas como tremor no olho, insônia, lapsos de memória, irritabilidade e queda de desempenho foram ignorados e normalizados. "Eu acordava mais cansada do que quando ia dormir", relata. O diagnóstico de burnout veio tarde, após um longo período de esgotamento. Afastada por 15 dias, ela tentou retornar, mas teve uma crise de pânico e optou pela demissão.

Carla destaca a irritabilidade como seu sintoma mais latente e fala sobre o preconceito que cerca o tema. "Não é questão de não aguentar o tranco. É questão de adoecer. Se fosse um relacionamento amoroso que te levasse a esse estado, todo mundo diria para terminar. Burnout não é frescura, não é desculpa. É um problema de saúde reconhecido pela OMS", defende.

A historiadora e jornalista Ana Carolina Rangel, 44, hoje especialista em felicidade corporativa, também viveu anos em exaustão permanente. Ela dormia com dois celulares e estava disponível quase 24 horas por dia, desenvolvendo problemas de saúde físicos até chegar ao limite durante a pandemia. "Era como se eu estivesse em um deserto interno", descreve sobre a dificuldade de identificar e verbalizar sua condição na época.

Respostas do poder público e judicialização

O avanço acelerado dos casos acendeu um alerta no governo. Em 2023, uma normativa do Ministério da Saúde reforçou o burnout como doença ocupacional, garantindo direito a auxílio-doença e estabilidade no retorno. O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) passou a exigir o mapeamento de riscos psicossociais nas empresas. Contudo, sob pressão de empregadores, o início das multas por descumprimento foi adiado para maio de 2026.

Na Justiça do Trabalho, o volume de ações também dispara. Um levantamento do escritório Trench Rossi Watanabe mostra que o termo "burnout" apareceu em 20,1 mil processos, decisões e acórdãos em 2025, um aumento de 16,9% em relação ao ano anterior. O passivo total para as empresas nessas ações chegou a R$ 3,63 bilhões, com um valor médio por processo de R$ 286 mil.

Para a advogada previdenciária Priscila Arraes Reino, o burnout deve ser visto como um problema estrutural do trabalho contemporâneo. Ela ressalta que o benefício por incapacidade costuma ser inferior à remuneração habitual, gerando perda de renda e dificuldades para custear tratamentos contínuos e caros.

Leonardo Rolim, ex-ministro da Previdência, avalia que o crescimento é um fenômeno estrutural, intensificado nos anos 2000 e após a pandemia. Ele aponta que setores como o bancário já mostravam altos índices há mais de uma década e destaca que os afastamentos por saúde mental tendem a ser mais longos, durando seis meses ou mais, contra três ou quatro meses de auxílios comuns. "O impacto maior não é apenas na despesa previdenciária, mas na produtividade do país e na vida das pessoas", conclui.