Um levantamento realizado pela Secretaria Municipal de Saúde de Campinas, no interior de São Paulo, trouxe um alerta sobre a saúde mental de jovens na cidade. Entre os anos de 2023 e 2025, as meninas na faixa etária dos 10 aos 19 anos concentraram a maior parte dos atendimentos ambulatoriais por transtornos alimentares, como anorexia nervosa e bulimia.
Os números que preocupam
De acordo com os dados enviados a pedido do g1, foram registradas 89 consultas para adolescentes do sexo feminino nesse período de três anos. Esse grupo representa sozinho 27,3% de todos os registros, superando outras faixas etárias. Em seguida, aparecem as mulheres entre 30 e 39 anos, com 23,6% do total.
Considerando homens e mulheres de todas as idades, a rede municipal de Campinas somou 393 atendimentos por esses transtornos entre 2023 e 2025. A tendência anual mostra uma queda nos números totais: foram 145 atendimentos em 2023, 133 em 2024 e 115 em 2025. Este último ano registrou o menor índice, com uma redução de 13% em relação a 2024 e de 20% na comparação com 2023.
Embora o número de meninas atendidas tenha caído pela metade (51%) de 2024 para 2025, os profissionais de saúde seguem em alerta. A predominância do público feminino é marcante: 82,7% dos 393 atendimentos foram para mulheres, totalizando 325 casos. Entre os homens, a faixa de 10 a 19 anos também é a que mais busca ajuda, com 26 registros.
A influência das redes sociais e a pressão estética
Especialistas ouvidos pela reportagem são unânimes em apontar fatores de risco por trás dos diagnósticos, especialmente na adolescência. A nutricionista Ana Ribeiro, formada pela Unicamp e especialista no tema, destaca que a adolescência é um período de vulnerabilidade.
“É uma fase muito difícil. Elas entendem que precisam ser de tal forma para serem validadas”, afirma a profissional, que observa um aumento de meninas jovens em seu consultório.
A psiquiatra Sara Sgobi, coordenadora da Atenção Secundária da rede municipal, compartilha da mesma percepção. Para ela, as redes sociais têm um papel significativo nesse cenário.
“O uso de filtros exagerados, que criam imagens que não são reais, acabam facilitando, ajudando essas meninas nos seus aspectos de distorção de imagem corporal, na busca de um corpo perfeito que simplesmente não existe”, explica Sgobi.
Ana Ribeiro complementa ao criticar conteúdos aparentemente inofensivos. “Muitas blogueiras postam a rotina de treino e ‘o que eu como em um dia’, muitas vezes com uma quantidade de comida muito pequena e irreal. Isso faz com que as pessoas, principalmente adolescentes, comecem a se comparar”, alerta.
Além do ambiente digital, outros fatores podem desencadear os transtornos, como comentários sobre o corpo feitos por familiares, episódios de bullying, as mudanças da puberdade e referências culturais que exaltam a magreza extrema.
Como identificar e buscar tratamento
O diagnóstico precoce é fundamental para reduzir os impactos físicos e emocionais causados pela anorexia e pela bulimia. A psiquiatra Sara Sgobi lista alguns sinais de alerta para familiares e pessoas próximas:
- Evitar refeições em família;
- Isolamento social;
- Irritabilidade;
- Mudanças bruscas nos hábitos alimentares.
Segundo o Ministério da Saúde, os sintomas específicos podem variar:
Na anorexia, é comum observar dietas que se tornam progressivamente mais restritivas, obsessão por ler rótulos e contar calorias, isolamento para não comer com a família e o hábito de se pesar e medir o corpo com frequência excessiva.
Na bulimia, os episódios de compulsão alimentar seguidos de comportamentos compensatórios são a marca principal. A pessoa pode comer muito rápido e em grande quantidade, dirigindo-se ao banheiro logo após para provocar vômito. Também é comum longos períodos de jejum após uma compulsão e a compra de laxantes e diuréticos sem prescrição médica.
A prática de atividade física em excesso é uma característica comum a ambos os transtornos.
O tratamento é complexo e requer acompanhamento de longo prazo com uma equipe multidisciplinar, que pode incluir psiquiatra, nutricionista, psicólogo e outros profissionais. No Sistema Único de Saúde (SUS), o atendimento é disponibilizado por meio da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), sendo a Atenção Primária à Saúde a porta de entrada para o cuidado.