Vírus Nipah: morcegos frugívoros como hospedeiros e os riscos para o Brasil
Vírus Nipah: hospedeiros e riscos para o Brasil

Vírus Nipah: morcegos frugívoros como hospedeiros e os riscos para o Brasil

Os morcegos frugívoros, incluindo espécies como a raposa-voadora, estão no centro de uma cadeia silenciosa que explica por que o vírus Nipah preocupa autoridades de saúde globalmente. Capazes de carregar o patógeno sem apresentar sintomas, esses animais funcionam como reservatórios naturais de um vírus altamente letal para humanos.

O surto recente e a transmissão

No mais recente surto, cerca de 110 pessoas foram colocadas em quarentena na Índia depois que dois profissionais de saúde foram tratados no início de janeiro após contraírem o vírus. O risco aumenta quando esse invisível nos morcegos encontra a criação de animais. Em surtos anteriores, o Nipah saltou dos morcegos para os porcos — que atuaram como hospedeiros intermediários — antes de chegar às pessoas, especialmente em ambientes rurais e de produção intensiva.

Foi assim no primeiro surto identificado, em 1999, na Malásia, entre criadores de suínos. Esse caminho, do morcego ao porco e do porco ao ser humano, ajuda a entender por que o Nipah é tratado como um alerta global, mesmo sem circulação registrada no Brasil.

Ausência no Brasil e preocupações globais

Não há registros da doença no Brasil nem em outros países da América Latina. Segundo especialistas, isso ocorre porque a região não abriga o hospedeiro necessário para a transmissão. A preocupação maior com relação ao vírus fica restrita à Índia e a países vizinhos, que têm o hospedeiro principal do vírus, um tipo de morcego.

O vírus não se espalha com facilidade entre pessoas, mas combina três fatores sensíveis: origem silvestre, passagem por animais de criação e alta taxa de mortalidade. Não há vacina para prevenir a infecção e nenhum remédio para curá-la.

O que é o vírus Nipah e seus sintomas

O vírus Nipah é especialmente agressivo por afetar o sistema nervoso central. Ele pode causar encefalite — uma inflamação do cérebro que pode evoluir rapidamente para quadros graves — e infecções respiratórias agudas após o comprometimento neurológico. Os sintomas iniciais incluem dor de cabeça, dor no corpo e febre.

Em alguns dias, o quadro pode evoluir para alteração do nível de consciência, com risco de sequelas neurológicas e até morte. A taxa de mortalidade pode chegar a 70%, e sobreviventes podem apresentar sequelas permanentes.

Hospedeiros e mecanismos de transmissão

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o Nipah é uma doença zoonótica, transmitida de animais para seres humanos. Os principais hospedeiros são:

  • Morcegos frugívoros, especialmente da espécie Pteropus, conhecida como raposa-voadora
  • Porcos, que atuam como hospedeiros intermediários

Segundo o professor Paulo Eduardo Brandão, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, os morcegos conseguem carregar o vírus sem adoecer devido a características específicas do sistema imunológico. "Os morcegos, em geral, possuem um sistema imune mais equilibrado. Eles desenvolveram uma resposta inflamatória menos intensa, mas ainda eficaz, o que evita danos maiores ao organismo e permite manter o vírus em níveis basais de replicação", afirma.

Brandão destaca que há vírus semelhantes ao Nipah circulando em morcegos no Brasil, embora não haja registro do vírus Nipah no país. "Existem paramixovírus da família Nipah em morcegos no Brasil", diz, ressaltando que eles não representam riscos imediatos.

Como ocorre a transmissão

O vírus Nipah pode ser transmitido de várias formas:

  1. Pelo contato com secreções de animais infectados
  2. Pelo consumo de alimentos contaminados, como frutas
  3. Pelo contato direto com uma pessoa infectada na fase aguda da doença, principalmente em ambientes hospitalares

Segundo Brandão, o salto do vírus do animal para o ser humano ocorre, principalmente, em situações específicas. "Isso acontece quando as pessoas entram em contato com porcos que se infectaram ao consumir frutas contaminadas por morcegos ou quando ingerem seiva de árvores onde morcegos infectados habitavam", afirma.

Transmissão entre humanos e papel dos porcos

A transmissão de pessoa para pessoa pode ocorrer, mas não é comum. Ela ocorre, sobretudo, entre profissionais de saúde. O vírus pode ficar incubado por um período de 4 a 14 dias, com máximo de 45 dias, mas só é transmitido entre humanos na fase aguda dos sintomas.

Segundo o infectologista André Siqueira, da Fiocruz, a transmissão do Nipah entre humanos é pouco eficiente quando comparada à de vírus respiratórios, como os da gripe ou da Covid-19. "Ele é transmitido na fase aguda, durante a manifestação dos sintomas, por um período de sete a dez dias. Diferentemente da Covid e da influenza, não há transmissão antes do início dos sintomas", explica.

Os porcos atuam como hospedeiros intermediários entre os morcegos e os seres humanos, mas não são essenciais no ciclo de transmissão do Nipah, segundo Brandão. Um hospedeiro intermediário é aquele que conecta o reservatório a espécie de interesse. Mas o professor explica que a criação intensiva de animais sem medidas de biossegurança pode aumentar o risco de surtos.

Diagnóstico, tratamento e vacinas em desenvolvimento

O diagnóstico é feito com base no histórico clínico e em exames laboratoriais, como RT-PCR em fluidos corporais, testes de detecção de anticorpos e isolamento do vírus em cultura de células. Não há vacina nem medicamento específico contra o Nipah. O tratamento é de suporte, focando em hidratação e manutenção da pressão.

Apesar de ainda não existir vacina aprovada contra o Nipah, há dois imunizantes em fase avançada de desenvolvimento na Ásia. Segundo Siqueira, em caso de um surto maior, essas vacinas podem ser eventualmente utilizadas. "Para demonstrar que elas de fato são eficazes, é preciso um número alto de casos. As vacinas contra o Nipah, dentro de 2 a 4 anos, podem estar disponíveis para uso mais amplo", afirma.

Por que a OMS considera o vírus prioritário

Mesmo com baixo risco de disseminação global, a OMS mantém o Nipah na lista de vírus prioritários porque ele tem alta letalidade, afeta o sistema nervoso central, pode causar surtos localizados graves e não tem vacina ou tratamento específico. Segundo Siqueira, não há evidências de mutações que aumentem a transmissibilidade do vírus.

Comparação com outros vírus e aumento do risco com desmatamento

Siqueira explica que o Brasil monitora à distância e com atenção vírus como Ebola, MERS, Nipah, arboviroses e a influenza. O médico destaca que a preocupação com o Nipah se assemelha a preocupação com o Ebola – presente na África e também com alta letalidade. O Brasil não teve registro de Ebola, assim como não teve registro de MERS e de Nipah.

Brandão destaca que o avanço sobre os ecossistemas favorece o contato entre animais silvestres, animais de criação e seres humanos, aumentando o risco de transmissão de vírus como o Nipah. "Animais fugindo do desmatamento podem entrar em contato com pessoas, porcos, gado e outros, transmitindo micro-organismos inesperados", afirma.

Ele destaca que manter os ecossistemas íntegros é uma das formas mais eficientes de reduzir o risco de novas pandemias. "Quanto mais protegida estiver a biodiversidade, menor será o risco de uma nova doença passar de outros animais para os seres humanos", reforça.

Surtos anteriores e risco para o Brasil

Os surtos anteriores do Nipah incluem:

  • 1999: primeiro surto identificado na Malásia, entre criadores de suínos
  • 2001: vírus detectado em Bangladesh, onde ocorrem surtos quase anuais
  • 2018: pior surto na Índia, em Calecute, quando 17 das 18 pessoas infectadas morreram
  • 2019: registro de um caso na Índia, com recuperação
  • 2021: um menino de 12 anos morreu após infecção

Especialistas associam os surtos à perda de habitat dos animais, que passam a viver mais próximos de áreas urbanas. Segundo especialistas, o risco para o Brasil é muito baixo. Não há registro de circulação do vírus no país.

"O vírus Nipah ainda não consegue se transmitir de forma eficiente entre pessoas, e por isso não se tornou uma pandemia", afirma Brandão. Mas o professor alerta que quanto mais pessoas forem infectadas, maior a chance de surgirem mutações capazes de facilitar a transmissão entre humanos, como ocorreu com a Covid-19 e nas pandemias de Influenza.

"Sem dúvida, a próxima pandemia virá de um vírus zoonótico, ou seja, que passará de outros animais para os seres humanos, contra o qual não teremos imunidade", diz Brandão. Siqueira destaca que o Brasil tem capacidade de identificar rapidamente casos suspeitos, com laboratórios de referência da Fiocruz e da rede do Ministério da Saúde.

Especialistas reforçam que o maior erro ao falar sobre vírus raros e letais é criar a ideia de risco iminente. A orientação geral é evitar contato com animais silvestres e consumir apenas alimentos bem higienizados.