Pais com deficiência visual sentem rosto do bebê na barriga com impressão 3D de ultrassom no Rio
Um projeto inovador desenvolvido no Rio de Janeiro está transformando a experiência do pré-natal para famílias com deficiência visual. A iniciativa converte imagens de ultrassonografia em moldes impressos em 3D, permitindo que os pais "vejam" o rosto do filho pelo toque ainda durante a gestação. Essa tecnologia tátil oferece uma forma concreta e emocionante de acompanhar o desenvolvimento do bebê antes mesmo do nascimento.
História de Vanderson: reconhecendo traços familiares no molde
É o caso de Vanderson, que perdeu a visão aos 11 meses de vida. Pela primeira vez, ele conseguiu participar ativamente do pré-natal da esposa, Mariana, ao tocar o molde do rosto do bebê. "O nariz não tem como… é total meu", brinca ele ao reconhecer características familiares na impressão tridimensional. Para famílias como a dele, as mãos substituem os olhos nesse primeiro contato íntimo com o filho que ainda está na barriga, criando uma conexão profunda e única.
Tecnologia que vai além da descrição verbal
O projeto é realizado a partir de exames de imagem convencionais e busca ampliar significativamente a inclusão no acompanhamento da gravidez. Segundo o ginecologista Heron Werner, da Dasa, a experiência tátil supera as limitações da descrição verbal feita durante o exame. "Quando você narra para um paciente com deficiência visual, ele reconstrói na cabeça. Mas, no momento em que ele toca, fica diferente", explica o médico, destacando o impacto emocional e sensorial da tecnologia.
Reprodução do corpo inteiro do bebê em 3D
Além do rosto do bebê, o projeto também possibilita a reconstrução completa do corpo do feto, reproduzido na posição exata em que estava durante o exame. Para isso, a gestante passa por um exame de ressonância magnética especializado. O resultado é então processado em laboratório, utilizando um programa de computador avançado. "Nós usamos uma sequência que chamamos de sequência 3D, que fornece todos os cortes do bebê. Trazemos esse arquivo para o laboratório, fazemos a reconstrução e a segmentação da imagem, e colocamos na impressora 3D. Posso fazer uma fusão dessas imagens, em alguns contextos, e gerar um modelo único", detalha Werner.
Emoção indescritível e acesso à tecnologia
O pai Vanderson compartilha sua experiência tocante: "Tá com a mão fechada [o bebê]. Experiência ímpar. É indescritível. A tecnologia a serviço das pessoas que precisam. Todos que precisam deveriam ter essa oportunidade, porque é singular". Seu relato ressalta não apenas a inovação técnica, mas também a importância de democratizar o acesso a essas ferramentas para promover a inclusão social.
Parceria acadêmica com a PUC-Rio
A iniciativa também envolve pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), fortalecendo a ponte entre academia e sociedade. Para o reitor da universidade, padre Anderson Antonio Pedroso, o projeto exemplifica como a pesquisa acadêmica pode ter um impacto direto e transformador na vida das pessoas. "Tudo o que a gente pesquisa precisa ser colocado a serviço da sociedade. Esse projeto realiza isso de maneira profunda, porque permite visualizar a vida e o cuidado com a vida", afirma, enfatizando o compromisso social da instituição.
Essa tecnologia não apenas inova no campo médico, mas também redefine os laços familiares, oferecendo uma nova dimensão de inclusão e afeto durante a gestação.