Estudo Catarinense Revela Benefícios do Óleo de CBD para Crianças Autistas
Uma pesquisa conduzida por duas universidades de Santa Catarina trouxe resultados promissores sobre o uso do óleo de canabidiol (CBD) em crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista (TEA). O estudo, que acompanhou 30 pacientes com idades entre 2 e 15 anos ao longo de 24 semanas, observou melhoras significativas na sociabilidade e na redução da agitação psicomotora.
Melhora na Sociabilidade e Redução da Agitação
O médico Alysson Madruga de Liz, autor principal do estudo, destacou que a principal melhora relatada pelos pais foi a diminuição da agitação. "As crianças ficam mais calmas, tranquilas e receptivas para enfrentar aulas e terapias", afirmou. Ele ressaltou ainda a importância do ganho na sociabilidade, uma vez que não existem medicamentos aprovados que auxiliem diretamente nesse aspecto para crianças autistas.
O neurocientista Paulo Bitencourt, professor da UFSC, e Rafael Mariano de Bitencourt, do Laboratório de Neurociência Comportamental da Unisul, também assinam o trabalho, que contou com colaboração de pesquisadores do Canadá e da Itália. O artigo foi publicado na revista científica Clinical Neuropsychopharmacology and Addiction em 31 de outubro.
Detalhes da Pesquisa e Efeitos Observados
O estudo utilizou um óleo rico em CBD, com proporção de 14 partes de canabidiol para 1 de THC, fornecido pela Associação Brasileira de Acesso à Cannabis Terapêutica (Abraflor). Entre os 30 participantes:
- 16 reduziram ou interromperam o uso de outros medicamentos, como risperidona
- Os efeitos adversos foram mínimos, limitando-se a aumento do apetite e, em alguns casos, maior nervosismo
- O produto contém traços mínimos de THC e maior concentração de CBD, substância associada ao controle da irritabilidade e melhora do sono
História de Mariano: Um Caso de Superação
Mariano, hoje com 10 anos, é um dos participantes do estudo. Filho da gastrônoma catarinense Fernanda Alves de Araújo, 44, e do engenheiro eletricista João de Araújo, 45, ele tinha cerca de 1 ano quando parou de falar. Sua mãe relata que, por volta dos 4 anos, o menino voltou a se comunicar, e ela acredita que a melhora está relacionada ao uso do extrato de Cannabis.
"Antes, ele não olhava no nosso rosto. O CBD o ajudou a enxergar melhor, a ter mais estímulos sociais, a conversar", disse Fernanda. Ela acrescentou que sempre buscou evidências científicas para embasar as escolhas de tratamento do filho, motivo pelo qual aceitou participar da pesquisa.
Limitações e Contexto Internacional
Apesar dos resultados positivos, os pesquisadores destacam as limitações do estudo. "Ainda carecemos de pesquisas com um número maior de participantes. Trata-se de uma medicação que segue em fase de testes", afirmou Liz. Ele mencionou que a ausência de terapias medicamentosas eficazes leva muitos médicos a prescreverem canabidiol para crianças autistas, especialmente em casos de agitação e agressividade.
Rafael Mariano de Bitencourt, coautor da pesquisa, enfatizou a importância de observar a prática clínica: "Muitas famílias já utilizam produtos à base de canabidiol de forma empírica". Um estudo de referência israelense de 2021, que acompanhou 150 crianças e adolescentes, mostrou que 49% dos pacientes que usaram medicamentos à base de Cannabis apresentaram melhora nos sintomas relacionados ao autismo.
O Caminho de Mariano com o Tratamento
A jornada de Mariano com o CBD não foi linear. Ele inicialmente interrompeu outros medicamentos ao começar o uso do óleo, mas em um período deixou de responder ao canabidiol e retomou fármacos convencionais. Atualmente, voltou a utilizar o CBD e reduziu novamente outros remédios.
Sua mãe reflete: "Não é uma questão de escolher entre o natural e o químico. É preciso olhar para o meu filho e entender o que ele precisa em cada momento". Essa perspectiva ressalta a importância de tratamentos personalizados e a necessidade de mais pesquisas para consolidar o uso do CBD no autismo.