Gordura Bege: Novo Estudo Revela Papel Protetor para o Coração e Controle da Pressão
Gordura bege protege coração e regula pressão arterial

Gordura Bege: A Descoberta que Pode Revolucionar o Tratamento da Hipertensão

Enquanto o excesso de gordura corporal é frequentemente associado a problemas cardíacos e metabólicos, uma pesquisa inovadora revela que um tipo específico de tecido adiposo pode desempenhar um papel crucial na proteção do sistema cardiovascular. Publicado em janeiro na renomada revista científica Science, o estudo destaca a gordura bege como uma aliada na regulação da pressão arterial e na prevenção da hipertensão.

Os Diferentes Tipos de Gordura e Suas Funções

O corpo humano possui seis tipos distintos de gordura, mas três deles são categorizados por cor, cada um com funções específicas:

  • Gordura branca: É a mais abundante no organismo, responsável pelo armazenamento de energia e isolamento térmico dos órgãos. Seu acúmulo excessivo está diretamente ligado à obesidade.
  • Gordura marrom: Atua na regulação da temperatura corporal, queimando calorias para produzir calor e manter o equilíbrio térmico.
  • Gordura bege: Considerada uma combinação das células brancas e marrons, essa gordura termogênica tem a capacidade de transformar células de gordura branca em marrom, promovendo a queima de calorias e contribuindo para a proteção vascular.

Paul Cohen, chefe do Laboratório de Metabolismo Molecular da Rockefeller University e autor principal do estudo, explica que a pesquisa buscou entender como os diferentes tipos de gordura influenciam o sistema cardiovascular. "Descobrimos uma forma pela qual o tecido adiposo pode regular a pressão arterial e a função vascular. Confirmamos que não é apenas a gordura em si que contribui para a hipertensão, mas o tipo de gordura", analisa o pesquisador.

Mecanismos de Ação da Gordura Bege na Proteção Cardiovascular

O estudo, realizado com modelos animais, demonstrou que a perda de gordura bege aumenta a sensibilidade dos vasos sanguíneos à angiotensina, um hormônio vasoconstritor que causa o estreitamento dos vasos e eleva a pressão arterial. Cynthia Valério, médica endocrinologista e diretora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO), destaca a importância dessa descoberta.

"O grande ponto desse estudo é que ele sugere, a partir de um modelo animal, uma relação causal entre a presença de adipócitos bege e uma menor chance de hipertensão a partir de um mecanismo molecular", detalha Valério, que também é subcoordenadora do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

Os pesquisadores observaram que a ausência de gordura bege levou a uma superprodução da enzima QSOX1, responsável por alterações significativas na estrutura dos vasos sanguíneos. Isso resultou em rigidez vascular, fibrose e hipersensibilidade a hormônios que promovem a constrição, aumentando o esforço cardíaco e elevando a pressão arterial.

Implicações para o Futuro do Tratamento da Hipertensão

A pesquisa abre novas perspectivas para o desenvolvimento de terapias mais precisas e direcionadas no combate à hipertensão. Ao detalhar os mecanismos moleculares envolvidos na relação entre a gordura bege e a saúde vascular, o estudo pavimenta o caminho para tratamentos que possam modular a atividade desse tipo de gordura no organismo.

Cohen ressalta a importância de avançar nas investigações: "Quanto mais sabemos sobre essas ligações moleculares, mais podemos avançar rumo a um mundo em que seja possível recomendar terapias direcionadas com base nas características médicas e moleculares individuais". O grupo já busca associações entre medicamentos aprovados e a atividade da gordura marrom, visando aproveitar substâncias existentes para novos objetivos terapêuticos.

Cynthia Valério enfatiza a necessidade de comprovação em modelos humanos para que as descobertas se tornem viáveis clinicamente. "Precisamos desses dados comprobatórios em modelos humanos e em modelos in vitro para seguir adiante como uma via para tratamento da hipertensão arterial", conclui a especialista.

Essa pesquisa representa um passo significativo na compreensão da complexa relação entre obesidade, tipos de gordura e saúde cardiovascular, oferecendo esperança para milhões de pessoas que lutam contra a hipertensão em todo o mundo.