O brasileiro ganhou anos de vida nas últimas quatro décadas, mas essa conquista não veio acompanhada de um coração necessariamente mais saudável. Enquanto a medicina cardiovascular deu saltos impressionantes com novos exames, medicamentos e terapias, fatores como obesidade, sedentarismo, estresse e alimentação ultraprocessada cresceram e passaram a pressionar o sistema circulatório da população.
O paradoxo do progresso: medicina avança, hábitos retrocedem
Um dos observadores mais atentos dessa transformação é o professor Robson Santos, fundador do Laboratório de Hipertensão da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que completa 40 anos como um centro de referência mundial. Em entrevista, Santos faz um balanço franco: "Mudou menos do que a gente gostaria", afirma. Ele destaca que, apesar dos enormes avanços no diagnóstico e tratamento, os fatores de risco aumentaram drasticamente, criando um desafio de contrabalancear a ciência com uma realidade ambiental e nutricional hostil.
O resultado desse cenário contraditório é claro: o brasileiro tem menos chance de morrer do coração do que no passado, graças aos progressos médicos, mas vive com um risco maior devido ao estilo de vida. A expectativa de vida aumentou, porém esse ganho convive com os "venenos modernos": estresse crônico, sedentarismo e obesidade.
A corrida da ciência contra a cultura e o lobby
Para o pesquisador, a ciência cardiovascular avançou muito mais rápido do que a mudança de hábitos da população. A conscientização ficou para trás, um problema que Santos atribui a aspectos culturais e à falta de políticas públicas contínuas e agressivas de esclarecimento. Ele também aponta um obstáculo poderoso: o lobby da indústria de alimentos ultraprocessados, que inundou o mercado com produtos ricos em sal e açúcar, tornando o ambiente alimentar um inimigo da saúde do coração.
Mesmo com informação abundante, as pessoas continuam se expondo aos riscos. Santos explica que há uma falsa sensação de invulnerabilidade. No caso da hipertensão, isso é agravado porque a doença é silenciosa. A pessoa mede a pressão, vê que está controlada com a medicação e, muitas vezes, abandona o tratamento, um erro com consequências graves a longo prazo.
Descobertas que mudaram a história e o futuro do tratamento
Questionado sobre o ponto de virada mais importante da cardiologia nos últimos 40 anos, Santos cita o desenvolvimento dos inibidores da enzima conversora da angiotensina, como o captopril. Essa descoberta, com raízes em pesquisas brasileiras iniciadas no Instituto Biológico de São Paulo, revolucionou o tratamento da hipertensão, insuficiência cardíaca e do pós-infarto.
As contribuições do seu próprio laboratório ajudaram a mudar a compreensão do sistema renina-angiotensina, visto por muito tempo apenas como um elevador da pressão. O grupo da UFMG demonstrou que esse sistema também tem um lado protetor, identificando substâncias como a angiotensina (1-7) e a alamandina, que relaxam os vasos e protegem o coração. Essa visão de equilíbrio abriu caminho para tratamentos que não apenas bloqueiam vias prejudiciais, mas também estimulam mecanismos naturais de defesa.
Sobre as promessas de vacinas contra hipertensão, o pesquisador se mostra cauteloso. Ele ressalta que a hipertensão exige um ajuste fino do tratamento, algo difícil de reverter no caso de uma vacina, cujo efeito pode ser duradouro e não facilmente "desligado".
Para Santos, o tratamento atual é suficiente para controlar mais de 80% dos casos. O grande problema reside na hipertensão resistente, na baixa adesão ao tratamento e no diagnóstico que ainda não chega a todos. Seu maior legado, após quatro décadas, vai além das descobertas científicas: é a formação de gerações de pesquisadores que hoje lideram estudos no Brasil e no exterior, espalhando o conhecimento e a busca por um coração mais saudável para a população.