ChatGPT Health e a Revolução dos Assistentes Médicos de IA: Promessas e Riscos
ChatGPT Health: IA na Saúde, Promessas e Riscos

ChatGPT Health e a Revolução dos Assistentes Médicos de IA: Promessas e Riscos

A inteligência artificial está adentrando os consultórios virtuais com ferramentas como o ChatGPT Health, inaugurando a era do "Dr. ChatGPT". Este fenômeno promete conveniência ininterrupta para dúvidas e exames, mas também suscita debates intensos sobre alucinações médicas e a ausência de empatia, reforçando que a IA deve servir como ferramenta de apoio, jamais como substituta do cuidado humano.

O Novo Interlocutor na Saúde

Dois milênios após Hipócrates estabelecer as bases da medicina, os pacientes agora contam com um novo interlocutor: a inteligência artificial. A OpenAI, detentora do famoso sistema de IA, anunciou o lançamento do ChatGPT Health, um assistente virtual que visa transformar a relação das pessoas com sua própria saúde. Ele não está sozinho; outras ferramentas, como a Claude da Anthropic e o MedGemma do Google, também competem por esse espaço antes reservado exclusivamente aos profissionais de jaleco branco.

O ChatGPT Health, acessível mediante assinatura, permite que os usuários conversem sobre sintomas, enviem exames e prontuários médicos, obtenham insights e até recebam sugestões personalizadas de treino e dieta. A plataforma chega a oferecer conselhos para tratamentos com medicamentos como Ozempic e Mounjaro. Segundo a OpenAI, mais de 230 milhões de pessoas em todo o mundo fazem perguntas sobre saúde ao ChatGPT semanalmente, representando mais de 5% de todas as mensagens trocadas na plataforma.

Vantagens e Funcionalidades

Essas ferramentas estão disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana, com funcionalidades cada vez mais sofisticadas. O Advanced Voice Mode, por exemplo, atua como uma companhia digital sempre à escuta, permitindo bate-papos casuais e orientações sobre saúde sem comandos formais. Nos bastidores, o ChatGPT Health se destaca pela colaboração de mais de 260 médicos especialistas, o que, segundo a OpenAI, amplia a capacidade de resposta, a sensibilidade e a segurança do programa.

Riscos e Desafios da IA na Saúde

No entanto, o entusiasmo com a IA na saúde é temperado por doses significativas de cautela. Profissionais alertam para os riscos de basear decisões médicas em assistentes de IA, um uso compartilhado por pacientes e clínicos. Um dos principais dilemas é a ocorrência de "alucinações", onde a IA produz informações incorretas ou inventadas com assertividade enganosa.

Testes realizados com o SimpleQA, sistema de avaliação da OpenAI, indicam que mesmo as versões mais recentes do ChatGPT podem apresentar taxas de alucinação próximas de 50%. Além disso, a IA enfrenta dificuldades em lidar com evidências científicas atualizadas ou reconhecer práticas médicas obsoletas.

Um estudo recente conduzido por pesquisadores sul-coreanos revelou cenários preocupantes. Em testes com programas como ChatGPT e Gemini, em situações onde um medicamento claramente não deveria ser recomendado—como opioides para sintomas gripais ou talidomida para vômitos na gravidez—os modelos defenderam o medicamento inadequado em até 94% dos casos, dependendo da formulação da pergunta. No Brasil, país conhecido pela automedicação, esse risco é ainda mais alarmante.

Uso por Profissionais e Impacto na Saúde Mental

Outro ponto crítico é o uso crescente dessas ferramentas pelos próprios profissionais de saúde. Embora a IA possa otimizar processos burocráticos e reduzir tempo em tarefas repetitivas, seu uso para suprir lacunas na formação médica é perigoso. No Brasil, onde uma em cada três faculdades de medicina não atinge pontuação satisfatória no Enamed, a IA nas mãos de médicos mal formados pode levar a condutas problemáticas.

Na saúde mental, o ChatGPT se tornou um dos terapeutas mais requisitados, com a psicoterapia no topo da lista de usos da IA em 2025, segundo um relatório da Universidade Harvard. No entanto, a psiquiatra Tânia Ferraz, da USP, ressalta que a IA carece de empatia, capacidade de escuta e percepção de nuances essenciais para o acolhimento. "Quando se trata de saúde mental, até o silêncio conta", afirma ela, destacando que a plataforma não consegue lidar com momentos de risco extremo, como ideação suicida.

O Futuro da IA na Saúde

A grande questão não está na tecnologia em si, mas em seu uso adequado. Matheus Torsani, chefe do Centro de Inteligência Artificial da Faculdade de Medicina da USP, defende que a IA é uma presença incontornável na saúde, mas deve ser encarada como ferramenta de apoio, não substituta do julgamento médico. Modelos como o ChatGPT Health representam um avanço técnico, mas não possuem raciocínio clínico.

No futuro, pacientes poderão organizar melhor suas demandas, conectar dados de saúde de dispositivos como smartwatches e chegar ao consultório com perguntas mais pertinentes. Por outro lado, a tecnologia pode auxiliar médicos a agilizar registros e revisar protocolos. Assim, as consultas tendem a se aprofundar, valorizando o bom senso e o acolhimento humano que as máquinas não conseguem oferecer.