Campinas integra testes da Fiocruz com injeção de longa duração contra HIV
Campinas testa injeção contra HIV que protege por 6 meses

Campinas é selecionada para testes com injeção inovadora contra HIV

A cidade de Campinas, no interior de São Paulo, foi uma das sete cidades brasileiras escolhidas pela Fiocruz para conduzir testes clínicos com o medicamento lenacapavir, um tratamento injetável de longa duração para prevenção do HIV. O estudo, que tem previsão de início em março, visa avaliar a viabilidade de incorporar essa nova tecnologia ao Sistema Único de Saúde (SUS), ampliando as opções de profilaxia disponíveis para a população.

Medicamento promete revolucionar a prevenção ao HIV

O lenacapavir, conhecido comercialmente como Sunlenca, é um antirretroviral injetável desenvolvido pela farmacêutica Gilead Sciences. Diferente dos comprimidos de uso diário, ele é aplicado apenas duas vezes ao ano, oferecendo proteção prolongada contra o vírus HIV. Estudos internacionais já comprovaram sua eficácia próxima de 100%, inclusive entre mulheres, grupo que historicamente enfrenta mais desafios com os métodos atuais.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o lenacapavir como a melhor alternativa disponível enquanto não existe uma vacina eficaz contra o HIV, recomendando-o como uma opção adicional de profilaxia pré-exposição (PrEP).

Objetivo dos testes e seleção das cidades

Segundo a médica infectologista Brenda Hoagland, coordenadora clínica do projeto pela Fiocruz, o foco não é testar a eficácia do medicamento, que já foi comprovada, mas sim avaliar sua implementação prática como política pública. “A gente quer ver a viabilidade de oferecer uma profilaxia injetável no SUS”, explicou ela.

Além de Campinas, as outras cidades participantes são São Paulo (SP), Florianópolis (SC), Rio de Janeiro (RJ), Nova Iguaçu (RJ), Salvador (BA) e Manaus (AM). Elas foram escolhidas por seu histórico de participação em projetos de prevenção ao HIV e por atenderem populações com maior vulnerabilidade. Em Campinas, os testes serão realizados no Centro de Referência em Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), HIV/Aids e Hepatites Virais, localizado no centro da cidade.

Detalhes da implementação e público-alvo

O lenacapavir será aplicado por injeção subcutânea, com cada dose garantindo proteção por aproximadamente seis meses. Os efeitos colaterais mais comuns são locais, como dor ou desconforto no ponto da aplicação. Profissionais de saúde receberão treinamento específico para administrar o medicamento.

O estudo não fará recrutamento ativo de participantes. A participação será restrita a pessoas que procurarem espontaneamente as unidades de saúde e se enquadrarem no público-alvo, que inclui:

  • Homens gays e bissexuais
  • Pessoas não binárias identificadas como do sexo masculino ao nascer
  • Pessoas transgênero
  • Com idades entre 16 e 30 anos

Os voluntários precisarão apresentar resultado negativo para o HIV. A escolha dessa faixa etária se deve ao aumento de novos casos entre adolescentes e jovens no Brasil, como em Campinas, onde os casos em adolescentes de 13 a 19 anos cresceram 75% de 2024 para 2025.

Custo e perspectivas futuras

O medicamento tem um alto custo, variando entre R$ 130 mil e R$ 200 mil por pessoa por ano, mas foi doado pela Gilead Sciences para o estudo, que terá duração de dois anos. No total, 1.500 pessoas participarão em todo o país, cada uma podendo receber até quatro doses.

Além da logística, o estudo também analisará a custo-efetividade do lenacapavir. “Se eu comprar o produto para aquelas populações que realmente podem se beneficiar, isso é custo efetivo? Vou reduzir os casos novos de HIV?”, questionou Brenda Hoagland.

O Ministério da Saúde afirmou que a pesquisa contribui para a produção de evidências, mas ressaltou que a incorporação ao SUS depende da aprovação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec), que analisa critérios como eficácia, segurança e custo-efetividade. Até o momento, não há pedido de análise para incorporação do lenacapavir.