Farra da venda ilegal de passagens de ônibus intermunicipais na Grande SP é flagrada em ação
Flagrantes registrados no começo deste ano revelam a farra que se tornou o embarque em ônibus intermunicipais — os da antiga EMTU — na Grande São Paulo. Vendedores clandestinos atuam abertamente, oferecendo passagens mais baratas, emprestando cartões do transporte de forma irregular aos passageiros e desviando dinheiro do sistema de bilhetagem, conhecido como Bilhete TOP.
Atuação descarada e sem sofisticação
Faça sol ou faça chuva, esses vendedores estão sempre presentes. No Centro da capital ou na região metropolitana, eles dividem o pouco espaço das calçadas com os passageiros e negociam a venda irregular de passagens diretamente na porta dos ônibus. Quando se diz na porta, é na porta mesmo, atrapalhando até a entrada dos usuários legítimos.
O esquema não possui nenhuma sofisticação e tampouco demonstra preocupação em ser escondido. Quem compra com esses vendedores recebe um Bilhete TOP carregado e, após passar na catraca, devolve o cartão. A devolução ocorre pela janela ou, no caso dos ônibus com ar-condicionado, pela fresta da porta.
Em Osasco, na Grande São Paulo, um vendedor clandestino chegou a agradecer a gentileza do motorista que esperou o cartão ser devolvido antes de seguir viagem. No Terminal Armênia, muitas pessoas adquirem os bilhetes ilegais, e os vendedores clandestinos chegaram a dar orientações sobre itinerários a poucos passos de uma equipe da Polícia Militar.
Fraudes antigas e prejuízos contínuos
Todos esses flagrantes foram realizados neste ano, mas as fraudes no transporte público da Grande São Paulo não são uma novidade. Elas ocorrem das mais diferentes formas e causam prejuízo dia após dia ao sistema de transporte, muitas vezes em frente à fiscalização existente.
Um diálogo comum ilustra a prática: Vendedor: Boa noite. Vai comprar o bilhete do metrô? Passageiro: Quanto é o bilhete? Vendedor: R$ 5. Passageiro: Não, não. Vou comprar lá. Vendedor: Quer passar primeiro? Faço R$ 4.
Respostas oficiais e alertas de especialistas
Em nota, a Autopass, empresa que administra o Bilhete TOP, afirmou que mantém um monitoramento permanente do sistema de bilhetagem e que, em 2025, dobrou o número de cartões bloqueados em relação a 2024. A empresa também destacou que a tecnologia do cartão TOP impede recargas por meios que não sejam os canais oficiais, mas não explicou como os vendedores clandestinos conseguem carregar os bilhetes usados no esquema.
O professor especialista em gestão pública, André Marques, alerta que a venda clandestina de bilhetes pode esconder várias outras irregularidades. Pode ser crime organizado envolvido, tentando esquentar dinheiros ilícitos, você pode ter uma gratuidade sendo utilizada indevidamente, afirma. Ele complementa: No final do dia, quando a empresa de transporte acaba não recebendo esse recurso, ele vai acabar sendo suportado pelo governo de alguma forma. Toda essa receita que não entra, que deixa de ser gerada pelos passageiros, acaba sobrando para os cofres públicos, e aí quem paga é a população como um todo.
A Autopass acrescentou que, na maioria dos casos, é o próprio titular do cartão que comercializa o vale-transporte ou gratuidades concedidas pelo estado de forma indevida.
Ações governamentais e denúncias
O governo do estado lembrou que a venda ilegal de bilhetes é crime e informou que, no ano passado, 30 pessoas foram detidas e 3.000 bilhetes foram apreendidos devido a essa prática. A administração estadual afirmou que vai intensificar as rondas da polícia em estações e terminais, e que a população também pode denunciar essa irregularidade pelo telefone 190.
Essas medidas buscam combater um problema que, além de prejudicar financeiramente o sistema de transporte, pode estar associado a atividades criminosas mais amplas, exigindo atenção contínua das autoridades e da sociedade.