Promotor de Sergipe critica foco apenas em repressão e defende políticas públicas integradas
Promotor critica foco em repressão e defende políticas integradas

Promotor de Sergipe defende mudança de foco no combate ao crime

O promotor da controladoria da atividade policial do Ministério Público de Sergipe, Rogério Ferreira, apresentou nesta quinta-feira, dia 22, uma análise detalhada sobre os dados divulgados das ações desenvolvidas em 2025 pela Secretaria de Segurança Pública do estado.

Durante entrevista concedida aos jornalistas Priscilla Bitencourt e Leandro da Graça, no telejornal Bom Dia Sergipe, o promotor destacou que o combate efetivo ao crime deve focar em políticas públicas integradas de educação e saúde, e não apenas na repressão policial tradicional.

Números não refletem complexidade da criminalidade

Apesar de Sergipe ter encerrado o ano de 2025 como o estado mais seguro do Nordeste e o nono mais seguro do Brasil, segundo dados oficiais da SSP, o promotor Rogério Ferreira afirmou que os números isolados não refletem adequadamente a complexidade da criminalidade.

Ele alertou especificamente para oscilações preocupantes em indicadores sensíveis, como o feminicídio, que demandam uma análise mais profunda e contextualizada.

Feminicídio: redução seguida de novo crescimento

De acordo com o promotor, Sergipe registrou uma redução significativa de 40% na taxa de feminicídios em 2024, quando comparado ao ano anterior de 2023.

Nesse mesmo período, as polícias estaduais solicitaram mais de 5.800 medidas protetivas ao Judiciário em favor das mulheres vítimas de violência.

No entanto, Ferreira apontou com preocupação que os dados preliminares de 2025 indicam um novo crescimento nesta modalidade de crime, demonstrando a volatilidade dos indicadores de segurança.

"O fenômeno do crime é multidisciplinar, sociológico e cultural. Precisamos de uma análise mais ampla do que simplesmente olhar para o número", afirmou o promotor durante a entrevista.

Distinção entre atuação policial e intervenções estruturais

Ferreira estabelece uma distinção clara entre a atuação direta das polícias e a necessidade de intervenções estruturais do estado.

Para ele, a política pública de segurança deve envolver de forma integrada áreas como:

  • Educação de qualidade
  • Saúde pública acessível
  • Urbanismo planejado
  • Esporte e lazer comunitário

Essas políticas, segundo o promotor, são fundamentais para evitar que jovens entrem na criminalidade, atacando as causas do problema e não apenas suas consequências.

"Nós precisamos mudar o foco do combate à criminalidade da figura do criminoso para o crime. Não é possível vencer a criminalidade focando exclusivamente no criminoso", afirmou Rogério Ferreira.

Sistema prisional em colapso

O promotor citou dados alarmantes sobre o sistema prisional brasileiro, que possui cerca de 710 mil presos para um déficit de 354 mil vagas, além de 340 mil mandados de prisão para serem cumpridos.

"O sistema não suporta. O sistema não cumpre sua função de ressocializar o preso", ressaltou Ferreira, destacando a necessidade de repensar as políticas de encarceramento.

Saúde mental dos policiais em esgotamento

Outro ponto crucial destacado na análise do promotor da Controladoria da Atividade Policial é o esgotamento dos agentes de segurança de forma geral, em todo o país.

Ele afirmou que o aumento no volume de apreensões de drogas, embora positivo sob o aspecto do trabalho policial, indica um crescimento da demanda criminal que sobrecarrega o efetivo disponível.

"O número de demandas recebidas pela segurança pública é superior à capacidade operacional e estrutural de dar respostas. Isso gera um adoecimento crônico", explicou o promotor.

Foco na paz pública e saúde mental

Rogério Ferreira defende que o foco do estado não deve ser apenas o recorde de prisões ou apreensões, mas a entrega efetiva de paz pública, redução do medo social e tranquilidade para a população.

Ele enfatizou especialmente a necessidade de preservar a saúde mental de quem atua na linha de frente da segurança pública.

"Nós precisamos cuidar da saúde mental dos nossos policiais. O policial precisa deixar de acreditar que ele é o super-herói da sociedade, que ele vai resolver todos os problemas que encontra na rua. Essa máxima não é verdadeira", afirmou o promotor.

Finalizando sua análise, Ferreira reforçou: "Segurança pública não é um assunto que esteja contido exclusivamente na pasta da segurança pública. Segurança pública é um assunto de saúde, de educação, de lazer e de segurança pública", concluindo com uma visão integrada e multissetorial do tema.