Homicídios dolosos crescem 6% em São Paulo, enquanto estado registra queda de 4%
SP: Homicídios sobem 6% na capital, mas caem no estado

Capital paulista registra aumento de 6% em homicídios dolosos em 2025

A cidade de São Paulo apresentou um crescimento de 6% nos crimes de homicídios dolosos na comparação entre os anos de 2024 e 2025, segundo dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública nesta sexta-feira (30). Esta tendência de alta na capital ocorre na contramão do cenário observado em todo o estado de São Paulo, que registrou uma redução de 4% na quantidade de vítimas de assassinatos no mesmo período.

Contraste entre capital e interior

Enquanto a capital paulista viu subir os índices de violência letal, o interior do estado como um todo apresentou queda nos registros. Os números estaduais passaram de 2.630 vítimas em 2024 para 2.527 em 2025, representando o menor indicador da série histórica iniciada em 2001.

Entretanto, algumas cidades do interior também registraram aumentos significativos:

  • Suzano: crescimento de 93% (de 14 para 27 mortos)
  • Lorena: aumento de 35% (de 20 para 27 vítimas)
  • Ubatuba: registrou 11 assassinatos
  • Itapetininga: também apresentou alta nos números

Concentração na zona sul de São Paulo

Na capital paulista, boa parte dos 530 homicídios registrados no ano passado esteve concentrada na zona sul, região mais populosa da cidade. Delegacias do Capão Redondo, Campo Limpo e Jardim das Imbuias viram as notificações de óbito crescerem consideravelmente.

Um exemplo emblemático é o caso do 37° DP (Campo Limpo), onde dobrou o número de pessoas assassinadas de um ano para o outro. Em 2023, 26 pessoas morreram naquela região, com investigações apontando que algumas delas foram vítimas de uma briga entre dois grupos rivais: membros do PCC e de uma organização local denominada Pés de Pato.

O embate teria como motivo disputas por pontos de tráfico e o gatonet (nome dado a ligações clandestinas de TV a cabo). Uma força-tarefa que reuniu policiais daquela delegacia e do DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa) identificou e prendeu suspeitos, resultando numa paz forçada, segundo relatos de agentes.

Dinâmicas criminais diversas

Os assassinatos desabaram no ano seguinte à operação, quando apenas nove homicídios foram reportados. Entretanto, as mortes voltaram a subir em 2025, com 18 ocorrências registradas. Investigadores ouvidos descartam o retorno do conflito entre facções e apontam casos isolados como:

  • Brigas de bar
  • Dívidas por drogas
  • Atritos entre vizinhos
  • Desentendimentos aleatórios

Conforme um perito criminal, as cenas de crime espalhadas pela cidade geralmente são isoladas e preservadas para os trabalhos da perícia, algo fundamental na tentativa de esclarecimento dos delitos.

Disputa entre facções no Vale do Paraíba

Localizado na divisa com o Rio de Janeiro, o Vale do Paraíba concentra diversos municípios com alta na quantidade de vítimas de assassinato. Destaque para São José dos Campos, onde houve dez mortes a mais, e Ubatuba, com 11 assassinatos.

Algumas das mortes na região, conforme apurações do Ministério Público e da Polícia Militar, são investigadas como possível disputa entre o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho). Entre essas ocorrências está a morte de dois homens em Ubatuba, em dezembro.

Para a polícia, o conflito geolocalizado teria como pano de fundo o interesse estratégico pelo porto de São Sebastião, o que demonstra como dinâmicas criminais organizadas podem influenciar os índices de violência em regiões específicas.

Análise especializada sobre as políticas de segurança

Coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, Rafael Rocha analisa que a tendência de recuo no estado é algo observado nos últimos anos, com algumas flutuações de alta na casa de 1%, não sendo algo inédito da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Para ele, a atual administração focou no policiamento ostensivo contra crimes patrimoniais, o que é necessário, mas que tal situação não possui um impacto tão grande nos assassinatos. "O homicídio é um crime que muitas vezes não tem uma lógica econômica. O latrocínio [roubo seguido de morte] tem. Mas o homicídio pode ser um assassinato de pessoas próximas, um homicídio de proximidade, de um vizinho, uma briga de trânsito, pode ser algo relacionado ao crime, pode ser um desentendimento de uma briga aleatória de pessoas na rua, pode ser várias dinâmicas", explica Rocha.

Conforme o especialista, o governo tem colocado a Polícia Civil num lugar de menor prestígio, ainda que o atual secretário de Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, que assumiu em dezembro passado, seja um delegado de carreira. "Você tem uma gestão estadual da segurança pública que não preza pela investigação, e tem dinâmicas criminais diversas", completa.

Caso emblemático: empresário morto em Interlagos

Um exemplo de homicídio ocorrido em 2025 foi a morte do empresário Adalberto Amarílio dos Santos Junior, 35 anos. O corpo dele foi encontrado no dia 3 de junho em um buraco no autódromo de Interlagos, na zona sul de São Paulo, um dos circuitos mais conhecidos do planeta.

Junior estava desaparecido desde o dia 30 de maio, quando foi ao local para acompanhar um evento de motocicletas. O caso é investigado pelo DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa). A suspeita é que ele tenha sido morto após se envolver em uma confusão com seguranças terceirizados que trabalhavam naquele dia.

Fernanda Dandalo, 35 anos, viúva de Adalberto, segue à espera de uma resposta que possa identificar o autor ou os autores e confortar a família. "Meu marido pagou por um evento e foi morto lá dentro, sem segurança nenhuma no local", afirma. Nada foi roubado da vítima - carteira, dinheiro e cartões estavam com ela quando foi encontrada.

O empresário foi localizado sem calça e sem os calçados. Ele estava de pé, com um capacete colocado sobre a cabeça. O laudo do Instituto Médico Legal apontou que Junior foi asfixiado, confirmando o homicídio. Naquele dia, cerca de 200 vigilantes atuaram no evento.

"São quase oito meses de uma angústia sem fim. Reviver o dia 3 de junho de 2025 todos os dias tem sido cruel e injusto com a família. Sabemos do empenho da polícia, mas ainda não temos os culpados pagando pelo que fizeram", desabafa Fernanda. "A indignação da família é a de cada brasileiro que sai de casa para um passeio e não volta mais. Sem motivo, sem qualquer explicação de ninguém. O maior estado do país sem garantir o mínimo de segurança ao cidadão honesto pagador de impostos."

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Segurança Pública limitou-se a informar que as investigações de todos os casos mencionados seguem em andamento, sem fornecer detalhes adicionais sobre as apurações ou as estratégias para conter o aumento dos homicídios na capital paulista.