Mãe relata dor após filho ser morto por facção no AC: 'Primeiro Natal sem ele'
A auxiliar de serviços gerais Maria Verônica Bezerra da Silva enfrenta um luto diário desde que perdeu o filho, João Vitor da Silva Borges, de 21 anos. O jovem foi encontrado morto no dia 11 de março do ano passado, dentro do Rio Juruá, em Cruzeiro do Sul, no interior do Acre. Em entrevista emocionada, ela descreve o primeiro Natal sem o filho como um dos piores momentos de sua vida, lembrando-se das celebrações que compartilharam em 2024.
"Ele era meu parceiro. Sou mãe solo e enfrentei desde a gravidez toda a barra sozinha para criar e educar meu filho. Esse foi meu primeiro Natal sem ele, e foi um dos piores momentos da minha vida pois me lembrava de 2024, que a gente passou junto o Natal e o Ano Novo", relata Maria Verônica.
Trauma e busca por justiça
Após 10 meses da tragédia, a mãe conta que o luto é constante e que, durante os primeiros meses, precisou de atendimento psicológico prestado pela Secretaria Estadual da Mulher (Semulher). Ela luta para superar os pensamentos sobre o sofrimento do filho durante a execução, buscando apoio em sua fé.
"Tem dias que tenho que me segurar para não ficar pensando no sofrimento dele na hora que ele estava sendo executado, então, eu me apego muito com Deus para tirar esse pensamento de mim, mas não é fácil, não", relembra.
Segundo Maria Verônica, o júri dos três primeiros acusados pela morte do jovem está marcado para fevereiro. Ela se prepara psicologicamente para enfrentar as pessoas que acredita terem tirado a vida de seu filho, um processo que pode intensificar a dor, especialmente com a exibição de provas do crime, incluindo um vídeo feito pela facção criminosa.
Detalhes do caso
João Vitor desapareceu no dia 8 de março de 2025, após sair de casa sem avisar o destino, em Cruzeiro do Sul. Seu corpo foi encontrado três dias depois às margens do Rio Juruá. O delegado responsável pelo caso, Heverton Carvalho, informou que o assassinato ocorreu após o jovem ajudar a imobilizar um homem durante uma abordagem policial, cerca de um mês antes, o que gerou revolta entre membros de uma facção criminosa.
Conforme o boletim da Polícia Civil, após ser solto, o homem imobilizado, Gabriel Farias da Cruz, teria cobrado da facção uma punição para João Vitor. "A cobrança por parte de Gabriel teria dado início às ações criminosas que levaram à morte da vítima", diz o registro policial.
João Vitor foi atraído por uma amiga, Maria Francisca Fernandes Lima, de 27 anos, que o levou até a facção criminosa. Ele foi brutalmente executado após ser submetido ao chamado 'tribunal do crime'. Pelo menos 15 pessoas já foram presas em conexão com o caso, conforme o delegado Heverton Carvalho.
Perfil da vítima
João Vitor era criador de conteúdo em redes sociais, produzindo vídeos humorísticos, e havia sido sorteado para fazer um curso de eletricista no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Sua mãe o descreve como um jovem bondoso e companheiro, cuja ausência deixa uma lacuna profunda.
"Era um menino muito bom, meu companheiro. Nesse tempo, estou aprendendo a viver com isso, mas eu não o esqueço, nunca. Lembro como se fosse hoje do dia que ele saiu de casa a última vez, se despediu de mim e não falou para onde ia", conta Maria Verônica.
O caso continua sob investigação, com a comunidade local e a família aguardando justiça enquanto enfrentam as consequências de um crime que chocou o interior do Acre.