Em uma acareação conduzida pela Polícia Federal no final de dezembro, o proprietário do Banco Master, Daniel Vorcaro, fez declarações significativas sobre suas interações com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, do MDB. O executivo afirmou que manteve conversas diretas com o chefe do Executivo local acerca da proposta de aquisição do Master pelo Banco de Brasília, o BRB.
Trechos do depoimento revelam detalhes das conversas
Vídeos contendo partes dessa acareação foram publicados nesta quinta-feira, dia 29, pelo portal Poder 360. Vale destacar que o teor dessas declarações já havia sido antecipado na semana anterior pelo blog de Andréia Sadi, no g1. Durante o interrogatório, a delegada da PF Janaina Palazzo questionou Vorcaro especificamente sobre suas relações políticas.
Perguntas diretas e respostas evasivas
Em um dos momentos mais reveladores, a autoridade policial indagou: "O senhor conversou com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, sobre a proposta de aquisição do Banco Master pelo BRB, anunciada em 28 de março de 2025?". A resposta de Vorcaro foi concisa: "Conversei em algumas poucas oportunidades, sim".
Em seguida, a delegada aprofundou a investigação, solicitando informações mais precisas: "Em caso afirmativo, quantas vezes o senhor encontrou ou conversou com o governador Ibaneis Rocha entre janeiro de 2024 e novembro de 2025? Peço que indique datas aproximadas, locais e assuntos tratados. O governador foi até sua casa, aqui em Brasília?".
O empresário respondeu de maneira um tanto vaga: "Já foi à minha casa, se eu não me engano uma vez. E eu já fui à casa dele. A gente se encontrou poucas vezes. Conversas institucionais, todas na presença também da...", sendo interrompido no decorrer da fala.
Questionamentos sobre outros políticos
A linha de interrogatório prosseguiu com Janaina Palazzo inquirindo sobre outros nomes do cenário político: "Quais os outros políticos, deputados, senadores que o senhor costumava convidar para ir até sua casa?". Vorcaro demonstrou certa resistência, afirmando: "Aí, a pergunta... eu tenho amigos de todos os Poderes, não consigo nominar aqui individualmente quem que frequentava a minha casa. Também não vejo qual relação com o caso".
Em outro trecho do mesmo depoimento, o dono do Banco Master assegurou que não discutiu a aquisição com outros políticos, limitando-se a Ibaneis Rocha e a autoridades do Banco Central. Ele também negou ter solicitado qualquer tipo de intervenção junto ao órgão regulador em benefício de sua instituição financeira.
Reação de Ibaneis Rocha às revelações
Na semana passada, quando os primeiros detalhes do depoimento vieram à tona, o governador do Distrito Federal já havia se manifestado publicamente. Ibaneis confirmou que se encontrou com Daniel Vorcaro em quatro ocasiões, mas negou veementemente que tenham tratado da venda do Banco Master ao BRB.
Em suas declarações, o político utilizou uma expressão marcante: "Entrei mudo e saí calado". Ele atribuiu a condução de todo o processo ao então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, demitido após o início das investigações. Ibaneis admitiu, contudo, que cometeu um erro ao confiar excessivamente no ex-presidente da instituição.
Contexto da operação Compliance Zero
A operação Compliance Zero, deflagrada pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, investiga possíveis irregularidades e indícios de gestão fraudulenta nas transferências financeiras entre o BRB e o Banco Master. Os valores envolvidos são expressivos: o Banco de Brasília injetou nada menos que R$ 16,7 bilhões no Master entre os anos de 2024 e 2025.
Na ocasião do início das investigações, Ibaneis Rocha minimizou a operação e defendeu Paulo Henrique Costa, caracterizando seus supostos erros como fruto de um excesso de confiança. Essa postura gerou debates intensos no cenário político e financeiro do Distrito Federal.
O caso continua em aberto, com a Polícia Federal aprofundando as investigações sobre as relações entre o poder público e as instituições financeiras envolvidas. As declarações de Daniel Vorcaro na acareação representam mais um capítulo nessa complexa trama, que mistura política, economia e possíveis ilicitudes no sistema bancário.