Unesp nega participação em cálculo que valorizou estoque de carbono em R$ 45,5 bilhões ligado a família de banqueiro
A Universidade Estadual Paulista (Unesp) negou formalmente a autoria de um cálculo utilizado para estimar o volume de estoque de carbono em um projeto ambiental controlado por familiares de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. A metodologia, que teria multiplicado o patrimônio de empresas vinculadas a fundos do banco, resultou em uma valorização estimada de R$ 45,5 bilhões, conforme investigações em andamento.
Estudo técnico sem chancela oficial da universidade
O caso gira em torno de um território localizado em Apuí, no Amazonas, onde as empresas Global Carbon e Golden Green apresentaram um estudo técnico que atribuía à Unesp a responsabilidade pela contabilidade do projeto. A universidade, no entanto, emitiu uma nota esclarecendo que nunca teve conhecimento desses estudos e não firmou qualquer contrato ou convênio para serviços de quantificação de estoque de carbono envolvendo a Fazenda Floresta Amazônica.
Segundo a Unesp, o conhecimento científico gerado pela instituição sobre o tema é de domínio público e não pode ser comercializado. A universidade destacou que não autorizou o uso de seu nome por servidores ou terceiros para chancelar prestações de serviço às empresas mencionadas, e que só tomou ciência do caso após a publicação de reportagens da imprensa.
Professor assina relatório, mas Unesp investiga conduta
O "Relatório de Quantificação de Estoques de Carbono" da Fazenda Floresta Amazônica, que exibe a marca da Unesp, foi assinado pelo professor Iraê Amaral Guerrini, docente da instituição, junto com outros quatro pesquisadores. Guerrini confirmou à reportagem que houve pagamento pelo serviço prestado, inicialmente atribuído ao suposto dono da fazenda e, posteriormente, corrigido para a empresa Global Carbon.
A Unesp ressaltou que, para que um docente preste serviços remunerados a terceiros, é necessária uma solicitação formal de atividade remunerada concomitante, o que não ocorreu neste caso. A única forma de a universidade ser remunerada seria por meio de contrato institucional, que é inexistente. A instituição afirmou que possui mecanismos internos para averiguar condutas como essa, das quais tomou conhecimento recentemente.
Metodologia teórica e valorização bilionária sem lastro de mercado
O estudo realizado em 2023 concluiu que o território de 143,9 mil hectares teria um estoque de 168,8 milhões de toneladas de CO₂, volume considerado fora dos parâmetros por especialistas do setor. Diferentemente do crédito de carbono, que pode ser comercializado em mercados auditados, o estoque de carbono é uma estimativa teórica sem titularidade exclusiva, mercado estabelecido ou liquidez.
Apesar disso, a Global Carbon e a Golden Green precificaram esses estoques, chegando à estimativa conjunta de R$ 45,5 bilhões. Em 2024, Guerrini elaborou um novo relatório de precificação baseado em uma fórmula teórica que considerava preços de commodities agrícolas e variações cambiais. O professor afirmou que sua metodologia tem finalidade estritamente científica e não foi concebida para fins comerciais ou de estruturação financeira.
Empresas defendem investimento e ameaçam buscar ressarcimento
Em nota conjunta, a Global Carbon e a Alliance Participações, controlada por Henrique Vorcaro e Nathália Vorcaro, pai e irmã de Daniel Vorcaro, afirmaram que a Alliance foi convidada a investir em créditos de carbono e recebeu ampla documentação técnica. Os documentos incluíam certificados de quantificação, relatórios de precificação atribuídos à Unesp, auditorias contábeis internacionais e parecer jurídico fundiário.
Com base nisso, decidiram investir, mas ressaltaram que a Alliance nunca comercializou os ativos, não atuou como gestora dos fundos ou do projeto, e que poderá buscar ressarcimento caso sejam comprovadas inconsistências. As transações entraram na mira da Justiça após revelações de que as terras pertencem à União e são destinadas à reforma agrária, culminando na Operação Carbono Oculto da Polícia Federal em 2025, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro.
Cronologia do esquema de valorização bilionária
- 2019: A Fazenda Floresta Amazônica, em Apuí (AM), passa a ser negociada como origem de bilhões em créditos de carbono, apesar de ser terra pública da União.
- 2020: São criadas as empresas Global Carbon e Golden Green, ligadas a fundos administrados pela Reag.
- 2021: Com base em auditorias financeiras sem lastro fundiário ou de mercado, as empresas passam a valer bilhões.
- 2023: A Alliance Participações compra 80% dos direitos de negócios de carbono da propriedade.
- 2023: Relatório atribuído à Unesp quantifica o estoque de carbono em 168,8 milhões de toneladas de CO₂.
- 2024: Com base no método teórico, a Golden Green passa a valer R$ 14,6 bilhões e a Global Carbon, R$ 31 bilhões.
- 2024: As transações entram na mira da Justiça após revelação de que as terras pertencem à União e são destinadas à reforma agrária.
- 2025: A Polícia Federal deflagra a Operação Carbono Oculto, que investiga suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo fundos da Reag e o PCC.
O caso continua sob investigação, com a Unesp mantendo sua posição de não envolvimento e analisando possíveis desvios de conduta por parte de servidores.