PF mira deputado Eduardo Velloso em operação sobre desvio de emendas no Acre
PF mira deputado Eduardo Velloso em operação no Acre

Operação Graco mira deputado Eduardo Velloso em investigação sobre desvio de emendas no Acre

A Controladoria-Geral da União (CGU) e a Polícia Federal do Acre deflagraram, nesta quinta-feira (29), a Operação Graco, que tem como alvo o deputado federal Eduardo Velloso, do União, além do ex-prefeito de Sena Madureira, Mazinho Serafim, e o advogado Giordano Simplício. A investigação apura um esquema de desvio de emendas parlamentares do tipo Pix, destinadas originalmente para a realização de três shows durante a Exposena Rural Show 2024, evento agropecuário realizado no município em setembro do ano passado.

Indícios de fraude em contratações de artistas

De acordo com a CGU, foram identificados indícios de fraudes nas contratações dos artistas Fernanda Brum, Batista Lima (ex-vocalista da banda Limão com Mel) e Paraná (ex-integrante da dupla Chico Rei e Paraná). Os shows foram organizados pela Prefeitura de Sena Madureira, sob gestão do ex-prefeito Mazinho Serafim. A análise técnica do órgão apontou problemas na comprovação de exclusividade dos artistas e uma celeridade incomum no processo de contratação.

O superintendente da CGU no estado, Nilo Lima, explicou que dos R$ 4,5 milhões de emenda enviadas ao município, cerca de R$ 1,3 milhão foi utilizado para o pagamento dos shows. Desse valor, apenas R$ 388 mil teriam sido repassados efetivamente aos três artistas, enquanto R$ 912 mil foram desviados pelos investigados, segundo as apurações iniciais.

Como funcionava o esquema investigado

As investigações tiveram início em outubro de 2024, após a prisão de um promotor de eventos em Rio Branco com uma bolsa contendo R$ 600 mil. A CGU identificou que o contrato de R$ 1,3 milhão foi custeado com recursos de transferências especiais, conhecidas como emendas Pix, feitas pelo deputado Eduardo Velloso e repassadas ao município a partir do orçamento federal.

Um dos pontos centrais da investigação é a contratação direta, sem licitação, com base na inexigibilidade de contratação. Para que esse tipo de contratação seja válida, o poder público precisa comprovar formalmente a exclusividade do empresário que representa os artistas. A CGU apurou que a empresa contratada, a boate Moon Club (posteriormente reinaugurada como Vitrine Club), não teria essa exclusividade real, caracterizando uma exclusividade simulada.

Além disso, o órgão identificou que os pagamentos foram realizados dois meses antes da realização dos shows, em setembro de 2024, o que configura outra irregularidade apontada no processo.

Empresa envolvida e contexto criminal

A Moon Club já havia sido alvo de operação da Polícia Federal em 2024, devido a movimentações financeiras atípicas e uso de empresas de fachada para ocultar valores ilícitos. Em setembro do ano passado, os empresários e irmãos John Muller Lisboa, Mayon Ricary Lisboa e Johnnes Lisboa, além do sócio e primo Douglas Henrique da Cruz e o empresário André Borges, foram presos por tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e organização criminosa, em conexão com o estabelecimento.

Posicionamento dos envolvidos

Em nota enviada ao g1, a assessoria do deputado Eduardo Velloso afirmou que a destinação da emenda seguiu rigorosamente os trâmites legais previstos na legislação vigente. O parlamentar destacou que, após a transferência dos recursos ao município, a responsabilidade pela execução, contratação de serviços e fiscalização da aplicação do dinheiro público é exclusiva da gestão municipal.

O ex-prefeito Mazinho Serafim, por sua vez, negou qualquer irregularidade e afirmou que a PF apreendeu seu celular durante as buscas. Ele ressaltou que as despesas com os shows foram acordadas com o Ministério Público de Sena Madureira e que o evento arrecadou entre R$ 140 mil e R$ 160 mil para a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais).

Já o advogado Giordano Simplício disse que atuava em demandas pontuais no município na época e que não possui vínculo com recebimento de recursos oriundos de emendas. Ele afirmou que buscará acesso aos autos do inquérito para apresentar sua defesa técnica.

Andamento das investigações

Nesta quinta-feira, a Polícia Federal cumpriu 14 mandados de busca e apreensão no Acre e no Distrito Federal, autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O material recolhido será analisado para subsidiar as próximas etapas da investigação.

As constatações da CGU foram formalizadas em uma nota técnica e encaminhadas à Polícia Federal ainda em 2024. Desde então, o caso segue sob investigação, com a operação Graco representando um novo capítulo no desvendamento do suposto esquema de desvio de recursos públicos.

O g1 entrou em contato com as assessorias dos artistas envolvidos e aguarda retorno. A reportagem também tenta contato com os administradores da empresa Moon Club para obter mais esclarecimentos sobre as acusações.