PF deflagra megaoperação contra desvio de recursos na saúde do Rio Grande do Norte
A Polícia Federal realizou uma extensa operação na manhã de terça-feira (27), cumprindo 35 mandados de busca e apreensão em diversas cidades do Rio Grande do Norte. A ação investiga um suposto esquema criminoso de desvio de recursos públicos e fraudes em processos de licitação relacionados à saúde municipal.
Prefeito de Mossoró entre os investigados
Entre os alvos da operação está o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União), suspeito de receber propina em contratos com empresas fornecedoras de insumos médicos. Em entrevista à Inter TV, Bezerra afirmou confiar na lisura de todos os processos ligados ao município e negou qualquer irregularidade.
"Eu tirei de minha responsabilidade licitar, contratar e pagar. Quem faz isso são os secretários. Eu acredito muito na lisura de todos os processos, acredito na nossa equipe, e cada um vai ter a oportunidade de demonstrar a sua integridade", declarou o gestor.
Esquema de propina detalhado pela PF
Segundo a investigação, transcrições de áudios captados revelam um esquema denominado "matemática de Mossoró". Em um contrato de R$ 400 mil, por exemplo, R$ 200 mil seriam destinados a produtos entregues oficialmente, enquanto os outros R$ 200 mil seriam divididos em:
- R$ 100 mil em propina, com R$ 60 mil para o prefeito Allyson Bezerra (equivalente a 15% do contrato total).
- R$ 70 mil como comissão para sócios das empresas envolvidas.
- R$ 30 mil para as próprias empresas.
A decisão judicial, assinada pelo desembargador federal Rogério Fialho Moreira, aponta que Bezerra e seu vice, Marcos Antônio Bezerra de Medeiros, estariam no topo do esquema, recebendo propinas em percentuais definidos sobre os contratos.
Seis prefeituras na mira das investigações
As prefeituras alvo dos mandados incluem Mossoró, Serra do Mel, Tibau, Paraú, São Miguel e José da Penha, todas localizadas na região Oeste potiguar. Além de Allyson Bezerra, também foram alvos de busca o vice-prefeito de Mossoró, Marcos Medeiros (PSD), os prefeitos de São Miguel, Leandro do Rego Lima (União), e de Paraú, Júnior Evaristo (PP), além de secretários de José da Penha.
A investigação tem como base auditorias da Controladoria-Geral da União (CGU), que apontam falhas na execução contratual, como compra de materiais não entregues, fornecimento inadequado de insumos e sobrepreço de produtos.
Defesas e posicionamentos dos envolvidos
Allyson Bezerra destacou que todos os contratos e licitações em Mossoró são realizados de forma eletrônica por servidores efetivos. Ele entregou celular e computador à PF durante a operação e afirmou que nenhum dinheiro foi encontrado em sua residência.
"Quem não deve não teme. E é por não dever e não temer que estou aqui, conversando com o cidadão, e dizendo que ninguém vai encontrar nenhum ato meu", reforçou o prefeito.
A empresa Dismed, fornecedora de medicamentos investigada, emitiu nota afirmando confiar que o esclarecimento técnico demonstrará a "inexistência de qualquer conduta criminosa", citando histórico de atividade lícita e fiscalizada.
Medidas cautelares e apreensões
A Polícia Federal confirmou a apreensão de dinheiro na casa de um dos sócios de uma empresa investigada, sem divulgar o valor. Um empresário de Serra do Mel foi conduzido em flagrante por posse ilegal de arma de fogo. A Justiça determinou medidas cautelares contra empresários, incluindo pagamento de fiança e uso de tornozeleira eletrônica.
As prefeituras envolvidas se pronunciaram, com a de José da Penha classificando a investigação como "comum" e afirmando que fornecerá todos os contratos à PF em 30 horas. Já a de Tibau ressaltou que não foi alvo de busca e que seus processos são 100% eletrônicos e transparentes.
A operação segue em andamento, com os investigados podendo responder por crimes de desvio de recursos públicos e fraudes em contratações administrativas, conforme as apurações avançam.