PF descobre elementos que ligam políticos ao caso Banco Master
As investigações conduzidas pela Polícia Federal sobre o Banco Master avançaram para um território sensível, alcançando elementos que sugerem o envolvimento de políticos com foro especial. De acordo com informações obtidas pela reportagem, as apurações referentes a essas autoridades terão necessariamente de tramitar no Supremo Tribunal Federal (STF), devido ao privilégio de foro.
Provas coletadas apontam para lideranças partidárias
Na primeira fase da operação Compliance Zero, que mirou o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, a PF coletou provas que contêm referências explícitas a lideranças partidárias e altas autoridades. Investigadores do caso, que falaram sob condição de anonimato, relataram que foram feitos "vários achados" mencionando essas figuras.
Quando Vorcaro foi preso, a PF realizou a quebra de sigilos, apreendeu documentos e acessou o telefone celular do banqueiro. Contudo, as referências aos políticos, na avaliação dos investigadores, não possuem relação direta com o inquérito original sobre a fabricação de carteiras fraudulentas de crédito consignado pelo Master e a negociação de venda para o BRB (Banco de Brasília).
Rede de aliados e tensão política
Daniel Vorcaro ganhou notoriedade em Brasília por construir uma extensa rede de aliados políticos e por organizar encontros em uma mansão na capital federal. As conhecidas relações do banqueiro têm gerado tensão significativa entre autoridades desde que ele se tornou alvo da PF.
Alguns políticos demonstram receio de que suas relações pessoais e financeiras com Vorcaro sejam desvendadas publicamente. As conexões do banqueiro são consideradas tão amplas que provocaram entre investigadores a leitura de que uma investigação profunda poderia ser comparável à operação Lava Jato, que abalou diversos partidos e levou a tentativas de obstrução das apurações.
Segunda fase e ordem do STF
A verificação desses indícios será agora aprofundada pelos investigadores para determinar se houve efetiva participação de autoridades no esquema de fraudes de Vorcaro. Esses elementos se somarão aos dados já coletados na segunda fase da operação, que focou no uso de fundos de investimentos administrados pela gestora Reag para desvio de recursos captados pelo Master com a venda de CDBs (Certificados de Depósitos Bancários).
A segunda fase da Compliance Zero, realizada em janeiro, ocorreu por ordem do ministro do STF, Dias Toffoli, que assumiu o caso após provocação da defesa de Vorcaro. A defesa alegou ter sido encontrada uma referência ao deputado João Bacelar (PL-BA), que possui foro especial. No entanto, a referência a Bacelar não é o alvo principal das novas apurações da PF.
O material apreendido na operação cita outros políticos, incluindo nomes do Congresso Nacional. Em depoimento à PF no fim de dezembro, Vorcaro minimizou suas conexões com autoridades, argumentando que, se tivesse tantas relações políticas, não estaria em situação tão delicada.
Possível desmembramento e pressão sobre o STF
Segundo investigadores, as apurações envolvendo políticos poderão ser desmembradas do caso original. Mesmo que o inquérito sobre o negócio BRB-Master seja remetido à Justiça de primeiro grau, a investigação envolvendo autoridades com foro especial continuaria sob supervisão do STF.
Nas últimas semanas, uma articulação foi iniciada por ministros do Supremo para que o caso seja remetido à Justiça de primeiro grau. O objetivo era reduzir a pressão sobre o tribunal, principalmente após revelações sobre conexões de integrantes do tribunal com negócios do Master.
O movimento passou a ser descrito como uma saída honrosa para o ministro Dias Toffoli, relator do inquérito no Supremo, que tem sua conduta questionada por manter alto grau de sigilo sobre o caso e pela sociedade que dois de seus irmãos mantiveram com um fundo controlado pelo cunhado de Vorcaro no resort Tayayá, no Paraná.
Ajuste de rota e conclusão das investigações
Com o desgaste do STF e a pressão da opinião pública, o ministro Edson Fachin, presidente do Supremo, chegou a afirmar que havia "uma tendência" de que o caso saísse do tribunal. No entanto, a menção aos políticos encontrada na investigação deve levar a um ajuste de rota, com parte das investigações enviadas à instância inferior e uma nova frente aberta no STF.
A investigação que pode ser enviada ao primeiro grau, envolvendo a fabricação de carteiras pelo Master, está avançada e deve ser concluída rapidamente, segundo agentes envolvidos no caso. A PF deve produzir um relatório final e apontar os indícios de crime praticados pelos principais suspeitos.
A preocupação de pessoas envolvidas no caso, ouvidas pela reportagem, é com o risco de as investigações contra políticos não avançarem no STF devido a pressões sobre a corte, o que poderia comprometer a apuração completa dos fatos.