Ex-servidora da Unicamp, acusada de desviar milhões, vive como faxineira na Europa enquanto é procurada pela Interpol
Ligiane Marinho de Ávila, uma ex-servidora da Funcamp (Fundação de Desenvolvimento da Unicamp), está atualmente foragida no Reino Unido, onde trabalha como faxineira, segundo investigações da Polícia Federal. Ela é acusada de desviar ao menos R$ 5,3 milhões em recursos públicos destinados a projetos científicos do Instituto de Biologia da Unicamp. Em maio do ano passado, seu nome entrou na lista de procurados da Interpol, intensificando a busca internacional.
Mandado de prisão e processo de extradição em andamento
Com base em um ofício da Polícia Federal, o Tribunal de Justiça de São Paulo determinou que o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional seja acionado para auxiliar no cumprimento do mandado de prisão contra Ligiane. O objetivo é facilitar sua eventual extradição para o Brasil. A suspeita, que tem 36 anos, deixou o país em 19 de fevereiro de 2024, apenas um mês após a descoberta dos desvios. Em setembro daquele ano, o Ministério Público já havia solicitado sua prisão preventiva e a quebra do sigilo bancário.
Detalhes dos desvios e uso de notas fiscais falsas
A investigação revelou que Ligiane utilizou uma conta aberta em junho de 2023 para comprar R$ 99.999,79 em moeda estrangeira com verbas de pesquisa. A conta foi encerrada dez meses depois, conforme documentos e extratos bancários acessados exclusivamente pela EPTV. Além disso, ela abriu uma empresa em 2018 e usou seu próprio CNPJ para emitir dezenas de notas fiscais falsas, apresentadas à Fapesp como prestação de contas. Essas notas registravam serviços que, segundo o MP, nunca foram realizados, com valores variando de R$ 6 mil a R$ 12 mil.
O promotor Fernando Vianna destacou que, entre 2018 e 2023, a conta pessoal de Ligiane movimentou R$ 6.657.776,15, com depósitos diretos de contas vinculadas a projetos financiados pela Fapesp. Ele explicou: "Não há dúvidas de que ela infelizmente desviou esse dinheiro e não há dúvidas de que a fundação foi lesada". O MP pediu o bloqueio de bens e uma indenização de ao menos R$ 4,5 milhões, com juros e correção monetária.
Posicionamento da defesa e envolvimento de pesquisadores
O advogado Rafael de Azevedo, que representa Ligiane, afirmou que todas as transações foram feitas com o consentimento dos pesquisadores e da universidade, sem um procedimento padrão de controle. Ele argumentou que os próprios pesquisadores solicitavam ajustes, como no caso de uma reforma no telhado do instituto, que não poderia ser custeada com verba de pesquisa. A defesa dos 34 pesquisadores acionados juridicamente, por sua vez, emitiu uma nota afirmando que as irregularidades foram denunciadas pelos cientistas em "total boa-fé". Eles ressaltam que são vítimas da situação e que ajuizaram ações para declarar inexigível a cobrança, com decisões liminares favoráveis em muitos casos.
Declarações da Unicamp e da Fapesp sobre o caso
A Unicamp informou que recebeu uma manifestação do Ministério Público em maio, com novos indícios, e está analisando o material para responder dentro do prazo de 30 dias. A universidade destacou que conduziu uma sindicância administrativa, que recomendou medidas para melhorar os escritórios de apoio, mas arquivou o processo. Até o momento, não há risco concreto ao patrimônio público da Unicamp, segundo a instituição.
Já a Fapesp constatou irregularidades na prestação de contas de projetos no Instituto de Biologia e ajuizou ações de cobrança contra os pesquisadores responsáveis, totalizando 34 ações. A fundação estima que o desvio total de recursos foi de R$ 5.384.215,88 entre 2013 e 2024, com a maior parte desviada através de contas de Ligiane. A Fapesp reconhece a relevância dos pesquisadores, mas mantém a cobrança em nome do zelo ao patrimônio público.
Ligiane é ré por crimes de peculato e lavagem de dinheiro, com um pedido de prisão preventiva ativo no Brasil e no exterior. A reportagem tenta localizar sua defesa para um posicionamento adicional, enquanto as investigações e processos judiciais continuam em andamento.