Vídeos do Hospital Anchieta mostram suspeitos ao lado de vítimas antes de piora súbita
Vídeos mostram suspeitos com vítimas antes de mortes no DF

Vídeos de segurança reforçam suspeitas contra técnicos de enfermagem no Hospital Anchieta

As câmeras de segurança do Hospital Anchieta, localizado em Taguatinga, no Distrito Federal, capturaram momentos cruciais que estão no centro de uma investigação policial sobre mortes suspeitas de pacientes. As imagens, obtidas pela TV Globo, mostram os três técnicos de enfermagem presos na semana passada trabalhando ao lado dos indivíduos que, segundo as autoridades, foram vítimas de homicídio qualificado.

Movimentação nos leitos coincide com deterioração clínica

Os registros visuais evidenciam a presença de Marcos Vinícius Silva, Amanda Rodrigues de Sousa e Marcela Camilly Alves das Silva nos leitos dos pacientes. Conforme apurado pela Polícia Civil, esses momentos registrados coincidem precisamente com a piora súbita e inexplicável do estado clínico das vítimas. Os vídeos, mantidos em sigilo para não comprometer as investigações, mostram Marcos Vinícius entrando sozinho nos quartos, permanecendo por curtos períodos ao lado dos enfermos e saindo em seguida.

Pouco tempo após essas visitas, os monitores hospitalares começaram a indicar alterações graves nos sinais vitais dos pacientes. Esse padrão repetitivo levantou fortes suspeitas sobre a aplicação irregular de substâncias, possivelmente com intenção letal. Em um dos registros, Marcos Vinícius aparece manipulando medicação, enquanto em outro ele está sentado frente a um computador, onde teria utilizado senhas de médicos sem autorização para emitir receitas falsas.

Envolvimento das técnicas de enfermagem

As imagens também documentam a presença das duas técnicas de enfermagem, Amanda e Marcela, que segundo os investigadores teriam auxiliado Marcos Vinícius na prática dos crimes e atuado para acobertar as condutas ilícitas. Os agentes da lei acreditam que as imagens reforçam a tese de que ambas tinham pleno conhecimento das ações do colega, acompanharam parte das intervenções e se omitiram ao não adotar medidas para interromper a conduta criminosa ou comunicar os superiores.

Durante os depoimentos, Marcela inicialmente negou qualquer participação, mas reconheceu os fatos ao ser confrontada com as evidências visuais, expressando arrependimento por não ter impedido o colega. Marcos também negou as acusações em um primeiro momento, porém confessou após ver os vídeos do circuito interno de segurança do hospital que mostravam suas ações.

Detalhes macabros dos crimes

De acordo com o delegado Wisllei Salomão, coordenador da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa, em um dos casos mais chocantes, o técnico utilizou uma seringa para aplicar treze vezes desinfetante diretamente na veia de uma paciente de 75 anos. A vítima, que já havia sofrido seis paradas cardíacas após receber quatro aplicações de um medicamento, não resistiu à introdução da substância de limpeza em seu organismo.

Em outras ocasiões, o mesmo técnico utilizou senhas médicas fraudulentas para obter medicamentos na farmácia do hospital, aplicando-os em três pacientes sem qualquer consulta à equipe médica responsável. Para disfarçar sua autoria, ele realizava massagens cardíacas nas vítimas na tentativa de reanimá-las após as aplicações irregulares.

Vítimas e cronologia dos crimes

As três vítimas fatais identificadas até o momento são:

  • Miranilde Pereira da Silva, 75 anos, professora aposentada de Taguatinga
  • João Clemente Pereira, 63 anos, servidor público do Riacho Fundo I
  • Marcos Raymundo Fernandes Moreira, 33 anos, servidor público de Brazlândia

Segundo a diretora do Instituto Médico Legal, Márcia Reis, os pacientes apresentavam gravidades diferentes, mas em todos os casos a deterioração súbita de suas condições chamou a atenção tanto da equipe hospitalar quanto dos investigadores. Duas das aplicações suspeitas ocorreram no dia 17 de novembro do ano passado, enquanto a terceira aconteceu em 1º de dezembro.

Respostas institucionais e familiares

O Hospital Anchieta emitiu uma nota informando que, ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas aos três óbitos na Unidade de Terapia Intensiva, instaurou um comitê interno de análise que em menos de vinte dias resultou na identificação de evidências contra os ex-funcionários. A instituição requereu a instauração de inquérito policial e afirmou ter entrado em contato com as famílias para prestar esclarecimentos.

A família de João Clemente Pereira manifestou profundo pesar e indignação, afirmando que até então acreditava que o falecimento havia ocorrido por causas naturais. Eles só tomaram conhecimento das suspeitas no dia 16 de janeiro, através de informações que indicam circunstâncias graves incompatíveis com uma morte natural.

O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF) emitiu comunicado informando que está acompanhando o caso e adotando as providências cabíveis no âmbito de sua competência legal, ressaltando o compromisso com a segurança do paciente e a ética profissional.

Prisões e investigações em andamento

As prisões dos três técnicos de enfermagem ocorreram no dia 11 de janeiro, com agentes cumprindo também três mandados de busca e apreensão em Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas de Goiás. Uma segunda fase da operação foi deflagrada na quinta-feira, 15 de janeiro, resultando na apreensão de dispositivos eletrônicos em Ceilândia e Samambaia.

Os três suspeitos responderão por homicídio qualificado pelas mortes das três vítimas, com variações nas combinações de acusações conforme o envolvimento de cada um nos casos específicos. A investigação continua para determinar se existem outras vítimas no Hospital Anchieta ou em outras instituições onde Marcos Vinícius tenha trabalhado, incluindo uma Unidade de Terapia Intensiva pediátrica de outro hospital particular em Taguatinga onde ele já estava atuando.