Novas famílias buscam investigação após prisão de técnicos de enfermagem no DF
Passadas quase duas semanas da revelação de possíveis mortes provocadas intencionalmente por técnicos de enfermagem no Hospital Anchieta, no Distrito Federal, a Polícia Civil continua recebendo novos relatos de pacientes que faleceram em circunstâncias similares. Nesta semana, mais uma família procurou a delegacia por suspeitar que uma parente, que também morreu no hospital, pode ter sido assassinada pelos três técnicos de enfermagem da UTI apontados como suspeitos.
Casos em investigação
Rosângela Mendes Ramos faleceu após uma parada cardíaca em janeiro do ano passado, aos 55 anos. Outras duas famílias, que tiveram parentes internados no hospital em agosto e setembro, também procuraram a polícia. As denúncias vieram de familiares que afirmam ter reconhecido, nas reportagens sobre o caso, os técnicos de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos, e Marcela Camilly Alves da Silva, de 22 anos. Além deles, Amanda Rodrigues de Sousa, de 28 anos, também foi presa.
Questionada, a Polícia Civil informou que ainda não tem um balanço com o número de ocorrências de pedidos de abertura de investigação. O inquérito que deve apurar os novos casos suspeitos ainda não foi aberto. A orientação da polícia é que, em caso de novas suspeitas, as famílias procurem a delegacia mais próxima. Se os registros tiverem elementos parecidos com os já investigados, serão encaminhados para a Coordenação de Repressão a Homicídios e Proteção à Pessoa.
Detalhes dos casos relatados
Rosângela Mendes Ramos foi internada com pneumonia no Hospital Anchieta. Segundo a filha, ao assistir à reportagem sobre a prisão dos técnicos, ela reconheceu a técnica de enfermagem Marcela. "Eu já tinha as minhas desconfianças porque a minha mãe estava reclamando muito do hospital. Ela não dormia, não queria ser intubada por medo, medo de ficar sozinha. Teve alguns erros. Quando saiu a reportagem, falei 'cara, essa desconfiança que eu tinha não era à toa. Tem algum erro aí'", diz a filha, Letícia Lima.
A família conta que Rosângela morreu pouco depois de tomar um medicamento. "Na noite que ela morreu, ela tomou um remédio, perguntou o nome do remédio. A técnica botou o papel no bolso e saiu. E aí ela falou 'se eu morrer hoje, manda fazer a autópsia'. Eu não mandei fazer. E aí, será que abreviaram a vida da minha mãe? Será que esse pessoal teve contato com a minha mãe? Será que tem outras pessoas envolvidas? Essa é a grande dúvida", relata. Rosângela deixou duas filhas e três netos. Ela era servidora pública do GDF e trabalhava na área administrativa do Hospital de Ceilândia.
Ivone Domiciano Azevedo faleceu em 14 de setembro do ano passado, após sofrer uma parada cardiorrespiratória na UTI do Hospital Anchieta. Ela tinha 80 anos. Segundo a família, a idosa deu entrada no hospital em 26 de agosto, com tontura. Nos exames, os médicos identificaram um aneurisma e ela permaneceu internada. A filha já prestou depoimento na Coordenação de Repressão a Homicídios e Proteção à Pessoa.
Ela contou que, minutos antes da parada cardíaca, a mãe recebeu uma medicação na veia aplicada pelo técnico de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo. "Quando a questão veio a público, eles já reconheceram o Marcos. Quando ele chegou pra medicar a dona Ivone, estava a filha e a fisioterapeuta dentro do quarto. Então ele aplicou o medicamento. E imediatamente que ele aplicou, ela passou mal, deu a parada, e foi nessa parada que ela veio a óbito", relembra a advogada da família Márcia Silva. A advogada afirma que Ivone chegou lúcida ao hospital e vinha se recuperando. A família tenta agora obter o prontuário médico junto ao hospital. Ivone deixou três filhos, quatro netos e três bisnetos.
O outro caso suspeito é de um homem de 89 anos. Ele morreu em agosto, também no Hospital Anchieta. As autoridades e a mídia tentam contato com a família para obter mais informações.
Confissões e investigações
Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo chegou a negar envolvimento, mas confessou os crimes em depoimento à Polícia Civil após ser confrontado com imagens das câmeras de segurança da unidade. Marcela também confessou. Segundo a investigação, o homem injetou doses altas de um medicamento nos pacientes – ou seja, usou o produto como um veneno. Em uma das vítimas, ele também injetou desinfetante na veia. Já as mulheres são acusadas de participar dos crimes "dando cobertura" ao outro técnico.
Ainda segundo a Polícia Civil, Marcos trabalhava há cinco anos na área. Após abrir a investigação interna, o Hospital Anchieta demitiu os três suspeitos. As autoridades continuam a analisar os novos relatos para determinar a extensão total dos casos e garantir que todas as famílias afetadas tenham suas denúncias devidamente investigadas.