Crime na UTI: técnico de enfermagem aplica substâncias letais em três pacientes do DF
O programa Fantástico trouxe à tona novos e perturbadores detalhes sobre a morte de três pacientes dentro da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Anchieta, localizado no Distrito Federal. Segundo as investigações conduzidas pela Polícia Civil, o responsável pelas fatalidades é o técnico de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos, acusado de inserir injeções contendo cloreto de potássio e até mesmo desinfetante diretamente nas veias das vítimas.
Mecanismo da morte: choque circulatório e sensação de morte iminente
O presidente da Associação de Medicina Intensivista Brasileira, Alexandre Amaral, explicou com clareza o efeito devastador dessas aplicações. "A consequência disso é um choque circulatório, ou seja, uma pressão muito baixa para estes pacientes, consequentemente, uma parada cardíaca imediata", detalhou o especialista. Ele acrescentou um aspecto particularmente angustiante: "Se o paciente estiver acordado, consciente, ele vai sentir o que nós chamamos de sensação de morte. Dor no peito, falta de ar, uma angústia muito forte".
Sequência de ataques foi registrada por câmeras de segurança
As mortes ocorreram no dia 17 de novembro, quando dois pacientes — Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos, e João Clemente Pereira, de 63 anos — sofreram múltiplas paradas cardíacas ao longo do mesmo dia. Inicialmente tratadas como fatalidades naturais, as ocorrências começaram a despertar suspeitas após uma sindicância interna identificar graves inconsistências nas prescrições médicas e nos horários de administração dos medicamentos.
As imagens das câmeras de segurança da UTI foram cruciais para a elucidação do caso. Elas mostram Marcos Vinícius utilizando senhas de médicos que sequer estavam presentes no hospital para registrar falsamente prescrições de substâncias controladas. Em seguida, o técnico se dirigia até a farmácia da unidade, retirava as ampolas e aplicava os conteúdos nos pacientes sem qualquer indicação ou autorização clínica.
"Eu pensava que ele estava salvando a minha mãe": o relato angustiante de uma filha
Um dos casos que mais chocou a opinião pública foi o de dona Miranilde. Consciente e conversando normalmente pela manhã, ela recebeu três aplicações de cloreto de potássio e, por fim, uma injeção de desinfetante, conforme atestou a perícia oficial. A idosa sobreviveu milagrosamente às três primeiras paradas cardíacas, graças a rápidas manobras de reanimação realizadas pela equipe médica — algumas dessas tentativas de salvamento ocorreram na presença de outros técnicos que, segundo a Polícia Civil, nada fizeram para impedir o agressor.
A quarta parada cardíaca, causada pela injeção do produto químico, infelizmente foi fatal. A filha da vítima, que acompanhava a mãe no hospital, relatou com profunda dor a sensação de impotência e engano: "Eu pensava que ele estava salvando a minha mãe, mas ele estava matando cada vez mais ela".
Terceira vítima morreu após longa internação e nova aplicação letal
A investigação policial aponta também que o carteiro Marcos Raimundo Moreira, internado no dia seguinte aos primeiros crimes, recebeu aplicações semelhantes das mãos do mesmo técnico. Ele apresentava um quadro de pancreatite, sem qualquer indicação de risco cardíaco iminente. Depois de sobreviver à primeira parada cardíaca induzida, o paciente veio a falecer no início do mês de dezembro, após receber uma nova injeção letal aplicada por Marcos Vinícius.
Prisões e depoimentos revelam falta de emoção e justificativas inconsistentes
O técnico de enfermagem acusado está atualmente preso de forma temporária na carceragem do complexo da Polícia Civil do Distrito Federal. Em seu primeiro depoimento, ele negou veementemente a prática dos crimes, mas foi confrontado com as imagens irrefutáveis das câmeras da UTI e, diante das evidências, acabou admitindo as mortes.
"No depoimento, ele foi uma pessoa que não demonstrou emoção", revelou o delegado responsável pelo caso. "Ele alegou que teria praticado os crimes porque o hospital estava muito movimentado. Como essa justificativa não é plausível, ele deu uma segunda justificativa, falando que estaria aliviando a dor dos pacientes. Isso também não é uma motivação. Então nós precisamos aprofundar para saber o real motivo que fez com que ele e essas duas técnicas cometessem esse crime".
As técnicas de enfermagem Marcela e Amanda também foram presas e encaminhadas para a penitenciária feminina da região. "As duas presenciam o técnico injetando tanto a medicação quanto o produto diretamente na veia dos pacientes e não fizeram nada para impedir aquele resultado", afirmou o delegado com firmeza.
Notas das defesas e posicionamento das instituições envolvidas
Em nota oficial, a defesa de Marcos Vinicius não negou formalmente as acusações, mas informou que vai se manifestar apenas no âmbito do inquérito policial, que corre sob sigilo judicial. A defesa de Marcela da Silva afirmou que ela lamenta profundamente o que aconteceu com as vítimas e que a dignidade dela, assim como a verdade dos fatos, serão integralmente restabelecidas durante o processo legal.
O advogado de Amanda de Sousa, Liomar Santos Torres, disse que ela e Marcos Vinicius mantiveram um relacionamento afetivo. "Ela se sente assim: manipulada por ele. E isso não quer dizer que ela tenha cooperado em nada com ele. Ela diz manipulada porque ela teve um relacionamento com ele", explicou o defensor. "Nega participação e nega as acusações, e nós vamos provar isso ao final do processo".
O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal emitiu uma nota expressando preocupação com a ampla repercussão do caso e alertando que generalizações podem prejudicar uma categoria formada por profissionais éticos e comprometidos com a preservação da vida. Já o Hospital Anchieta afirmou que "se solidariza com os familiares das vítimas e repudia veementemente os atos criminosos investigados".
A instituição hospitalar acrescentou que os atos foram conduta individual de criminosos, praticada à revelia do estabelecimento, dos valores da medicina e da assistência em saúde, sendo rapidamente identificada, investigada e neutralizada, com o imediato acionamento das autoridades competentes.