Coren-DF investiga três homicídios na UTI do Hospital Anchieta em Taguatinga
Coren investiga mortes na UTI do Hospital Anchieta no DF

Coren-DF busca informações sobre mortes suspeitas na UTI de hospital particular

O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF) protocolou um ofício no Hospital Anchieta, localizado em Taguatinga, solicitando acesso às informações da investigação sobre a morte de três pacientes internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da instituição. Segundo o conselho, representantes do Coren-DF estiveram pessoalmente no hospital nesta segunda-feira (19), mas não conseguiram obter os documentos necessários. O hospital justificou que o caso tramita sob segredo de Justiça, o que limita a divulgação de detalhes.

Investigação preliminar e processo ético-profissional

O procurador-geral do Coren-DF, Jonathan Rodrigues, explicou que, após ter acesso aos autos, o conselho deve instaurar uma investigação preliminar. Este procedimento antecede a abertura de um processo ético-profissional, que pode resultar na cassação dos registros dos profissionais envolvidos. "O primeiro passo é realizar uma investigação prévia para apurar indícios mínimos e dar seguimento ao processo ético em desfavor desses profissionais. Caso isso seja comprovado, pode haver a aplicação de uma suspensão cautelar, suspendendo o exercício profissional", afirmou Rodrigues.

O presidente do conselho, Elissandro Noronha, revelou que tomou conhecimento do caso por meio de reportagens na imprensa. Após a repercussão, o Coren agendou uma reunião com o delegado responsável pelo caso, Wisllei Salomão, marcada para a tarde desta quarta-feira (21). "Nós vamos formalizar novamente o pedido para que possamos ter mais informações, como todos os dados completos dos profissionais e cópia do inquérito policial", disse Noronha à TV Globo.

Suspeitos e detalhes dos crimes

Três técnicos de enfermagem estão presos suspeitos do crime, segundo a Polícia Civil do Distrito Federal. São eles:

  • Amanda Rodrigues de Sousa, de 28 anos
  • Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos
  • Marcela Camilly Alves da Silva, de 22 anos

Marcos Vinícius é apontado como o principal executor dos crimes, tendo confessado em depoimento à Polícia Civil na terça-feira (20). Marcela também confessou após ser confrontada com evidências. Os suspeitos são investigados pelos seguintes homicídios qualificados:

  1. Morte de Miranilde Pereira da Silva, 75 anos
  2. Morte de João Clemente Pereira, 63 anos
  3. Morte de Marcos Raymundo Fernandes Moreira, 33 anos

Segundo a investigação, Marcos injetou doses altas de um medicamento nos pacientes, usando o produto como um veneno. Em um dos casos, ele também aplicou desinfetante diretamente na veia da vítima. As mulheres são acusadas de participar dos crimes "dando cobertura" ao colega.

Detalhes das confissões e métodos criminosos

De acordo com o delegado Wisllei Salomão, coordenador da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Marcos negou o crime inicialmente, mas confessou após ser confrontado com vídeos do circuito interno de segurança do hospital. Marcela também negou no início, mas reconheceu a ação ao ver as imagens e expressou arrependimento por não ter impedido o colega.

A diretora do Instituto Médico Legal, Márcia Reis, destacou que os pacientes tinham gravidades diferentes, mas a piora súbita chamou a atenção. Nas imagens das câmeras, a Polícia Civil percebeu que os medicamentos eram aplicados em momentos de deterioração das vítimas. Em um caso específico, Marcos usou uma seringa para fazer 13 aplicações de desinfetante em Miranilde Pereira da Silva. "Como ela não faleceu, e como o medicamento havia acabado, ele utilizou de um desinfetante que estava na pia do leito. Ele encheu cerca de 13 seringas e injetou diretamente na veia da paciente, e isso também causou o óbito dela", relatou o delegado.

Em outra ocasião, o técnico usou a senha de um médico para emitir uma receita fraudulenta do medicamento, buscando-o na farmácia e aplicando-o nas três vítimas sem consultar a equipe médica. Para disfarçar a autoria, ele fazia massagem cardíaca nos pacientes na tentativa de reanimá-los.

Reações das instituições e familiares

O Hospital Anchieta informou, em nota, que "ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas a três óbitos na Unidade de Terapia Intensiva", instaurou um comitê interno para investigar os casos e pediu a abertura de um inquérito policial. A instituição afirmou que as vítimas foram informadas das suspeitas e que colabora integralmente com as autoridades.

A família de João Clemente Pereira disse, também em nota, que acreditava que a morte tinha ocorrido por "causas naturais", tendo tomado conhecimento da suspeita de crime apenas na sexta-feira (16). A família expressou confiança na atuação da Polícia Civil, do Ministério Público e do Poder Judiciário, e afirmou que adotará medidas legais para responsabilização criminal e civil.

O Coren-DF emitiu uma nota afirmando que está acompanhando o caso e adotando as providências cabíveis, ressaltando o compromisso com a segurança do paciente e a ética profissional.

Prisões e investigações em andamento

As prisões dos técnicos de enfermagem ocorreram no dia 11 de janeiro, com agentes cumprindo três mandados de busca e apreensão em Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas de Goiás. Uma segunda fase da operação foi deflagrada na quinta-feira (15), com apreensão de dispositivos eletrônicos em Ceilândia e Samambaia.

A investigação continua para apurar se existem outras vítimas no Hospital Anchieta ou em outros hospitais onde Marcos trabalhou, incluindo uma UTI pediátrica de outro hospital particular em Taguatinga. O Hospital Anchieta demitiu os três suspeitos após abrir a investigação interna.