Câmera de reconhecimento facial captura Sérgio Nahas na Bahia após 24 anos foragido
Câmera facial prende Sérgio Nahas na Bahia após 24 anos

Câmera de reconhecimento facial identifica e leva à prisão de Sérgio Nahas na Bahia

O empresário Sérgio Nahas, de 61 anos, foi preso no sábado (17) em Praia do Forte, destino turístico na cidade de Mata de São João, na Bahia. A captura ocorreu vinte e quatro anos após ele ter sido condenado por assassinar a esposa, Fernanda Orfali, em 2002, em São Paulo. Nahas foi localizado através de uma câmera de identificação facial da Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), que acionou a Polícia Militar para efetuar a prisão no apartamento de luxo onde ele estava hospedado.

Detalhes da prisão e itens apreendidos

No momento da prisão, os policiais encontraram com Sérgio Nahas treze pinos de cocaína, três celulares, cartões de crédito e um carro da marca Audi. O empresário estava foragido desde que a Justiça expediu um mandado de prisão em 2025, após a confirmação de sua condenação pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Seu nome e foto constavam na Difusão Vermelha da Interpol, lista internacional para localização de foragidos.

Por que o crime não é classificado como feminicídio

Em entrevista ao g1, a advogada Renata Deiró, que atua na Comissão de Proteção aos Direitos da Mulher da Ordem dos Advogados do Brasil - Seção Bahia (OAB-BA), explicou que Sérgio Nahas responde por homicídio simples, com pena prevista de oito anos e dois meses de prisão em regime fechado, e não por feminicídio. A tipificação do feminicídio foi estabelecida pela lei n.º 13.104 de 2015, como uma qualificadora do crime de homicídio, aplicável quando a mulher é morta por razões de gênero, com penas que podem chegar a quarenta anos de reclusão.

"Em 2002 ainda não existia a qualificadora que prevê o crime de feminicídio", afirmou Renata Deiró. "A lei penal tem um princípio constitucional da irretroatividade da lei. Ou seja, a lei mais grave não pode retroagir, não pode voltar no tempo para atingir um crime que aconteceu lá atrás", detalhou a advogada. Ela enfatizou que rever ou reajustar a pena é impossível, pois violaria os princípios da legalidade e da retroatividade da lei penal mais severa, além de a condenação já ter transitado em julgado, sem caber mais recursos.

Pena considerada branda mesmo para a época

Na avaliação de Renata Deiró, a pena determinada pela Justiça foi branda, mesmo considerando a realidade jurídica de 2002. A investigação concluiu que Sérgio Nahas assassinou a esposa porque temeu que ela terminasse a relação e ele fosse obrigado a compartilhar os bens. "Só pelo fato dela querer terminar o relacionamento poderia ter se considerado um motivo torpe. Não houve nenhuma qualificadora, ele praticamente foi condenado ao mínimo da pena de homicídio", comentou a advogada, destacando que isso poderia ter sido uma agravante para render uma pena mais alta.

Cronologia do caso

  1. 2002 – O crime: Em setembro, Fernanda Orfali, de 28 anos, foi assassinada no apartamento do casal em Higienópolis, São Paulo. A acusação alega que Nahas arrombou a porta de um closet onde ela tentou se trancar e efetuou dois disparos, sendo o primeiro fatal. A defesa alegou suicídio, mas a perícia descartou a versão ao não encontrar pólvora nas mãos da vítima. Nahas foi preso por porte ilegal de arma, mas solto após 37 dias.
  2. 2002–2018 – Processo lento: O caso se arrastou por anos. Em 2018, Sérgio Nahas foi condenado pelo Tribunal do Júri a sete anos em regime semiaberto por homicídio simples, já que a Lei Maria da Penha (2006) e a Lei do Feminicídio (2015) não estavam em vigor na época do crime.
  3. 2018–2025 – Recursos e aumento da pena: O Ministério Público recorreu, e em maio de 2025, o STF condenou Nahas definitivamente a oito anos e dois meses em regime fechado. A defesa tentou reverter sem sucesso.
  4. 25 de junho de 2025 – Mandado de prisão: Com a condenação confirmada, a Justiça de São Paulo expediu o mandado, e o nome de Nahas entrou na lista da Interpol.
  5. 17 de janeiro de 2026 – Prisão na Bahia: Capturado em Praia do Forte, mesmo local da lua de mel do casal, após identificação por câmera de reconhecimento facial.

Posição da defesa

Em nota, a advogada Adriana Machado e Abreu, responsável pela defesa de Sérgio Nahas, afirmou que a prisão do empresário representa "um dos casos de maior injustiça do Brasil". Ela disse que Nahas já morava na Bahia antes do mandado de prisão ser expedido e que não tinha interesse em descumprir determinações da Justiça.

A prisão de Sérgio Nahas destaca o uso de tecnologia de reconhecimento facial na segurança pública e as complexidades legais envolvendo crimes históricos e mudanças na legislação penal brasileira.