Um mês sem Maduro: expectativa e mudanças dominam cenário venezuelano
Há exatamente um mês, na madrugada de 3 de janeiro, as primeiras bombas caíram sobre Caracas. O barulho das hélices, as explosões sucessivas e os clarões no céu noturno acordaram uma população que ainda não compreendia o desfecho da ofensiva militar norte-americana. Naquele momento histórico, Nicolás Maduro era capturado junto com sua esposa, Cilia Flores, e transportado para Nova York, onde aguarda julgamento por acusações de tráfico de drogas. O comando do país passou imediatamente para as mãos de Delcy Rodríguez, então vice-presidente, que assumiu o poder em meio a uma crise sem precedentes.
Estabilidade tutelada: o novo equilíbrio de forças
Sob pressão constante do governo dos Estados Unidos, Rodríguez conduz mudanças estruturais exigidas pelo presidente Donald Trump, enquanto mantém cuidadosamente o discurso chavista que caracterizou as últimas décadas na Venezuela. A reaproximação diplomática com Washington, a abertura do setor petroleiro para investimentos privados e o anúncio de uma anistia geral alteraram profundamente o cenário político nacional. Trump ordenou pessoalmente o bombardeio que resultou na captura de Maduro e na morte de quase cem pessoas, entre civis e militares. Contudo, diferentemente de intervenções anteriores dos Estados Unidos em outros países, não houve uma ruptura total do sistema.
Rodríguez conseguiu manter o chavismo formalmente no poder, porém sob influência direta e constante de Washington. Guillermo Tell Aveledo, professor de Estudos Políticos da Universidade Metropolitana, descreve esta situação como uma estabilidade tutelada, onde as decisões precisam ser validadas pelos interesses norte-americanos. O presidente Trump já classificou Rodríguez como formidável e a convidou para uma visita à Casa Branca, embora a data permaneça indefinida. Tudo está indo muito bem com a Venezuela, declarou Trump em 14 de janeiro, após o primeiro telefonema oficial entre os dois líderes.
Abertura petroleira: reviravolta na indústria nacional
A Venezuela aprovou uma reforma radical da lei do petróleo, medida amplamente atribuída à pressão exercida pelos Estados Unidos. Esta nova legislação revoga, na prática, a nacionalização de 1976 e o modelo estatista implantado por Hugo Chávez três décadas depois. Empresas privadas passam a operar de forma independente, sem a exigência anterior de participação minoritária da estatal PDVSA. O plano estratégico do governo Trump é atrair petroleiras americanas de grande porte, como a Chevron, para investir maciçamente no país.
A nova lei reduz significativamente os royalties, simplifica o sistema tributário e elimina a exclusividade na exploração primária. Francisco Monaldi, analista e professor nos Estados Unidos, afirma que esta é a única maneira de obter investimentos relevantes. Especialistas estimam que a Venezuela necessita de aproximadamente cento e cinquenta bilhões de dólares para recuperar sua indústria petroleira, severamente afetada por anos de corrupção e má gestão. Trump assumiu o controle direto de parte das vendas de petróleo venezuelano no mercado internacional, revertendo os descontos impostos pelo embargo de 2019.
Governo e propaganda: o delicado equilíbrio interno
Teoricamente, Delcy Rodríguez lidera o governo de forma interina, mantendo a estrutura anterior de Maduro. Ela já substituiu diversos ministros e oficiais de alta patente das Forças Armadas desde que assumiu o poder, embora figuras influentes como Diosdado Cabello e Vladimir Padrino permaneçam temporariamente em seus cargos. É uma fase de reajuste para um sistema que preferia não alterar sua hegemonia, analisa Aveledo. A reaproximação com os Estados Unidos contrasta fortemente com a retórica historicamente anti-imperialista do chavismo, que ainda permeia as Forças Armadas.
O partido governista continua organizando marchas frequentes contra o que denomina sequestro de Maduro. A televisão estatal exibe regularmente uma música que pede sua libertação imediata. Recentemente, os rostos de Maduro e Cilia Flores foram projetados em um espetáculo de luzes com drones no Forte Tiuna, o principal complexo militar do país, justamente o local que foi bombardeado durante a incursão americana. Os drones também exibiram trechos da declaração de Maduro ao tribunal de Nova York, onde ele se autodefiniu como prisioneiro de guerra.
Anistia e medo: a complexa transição social
Rodríguez anunciou uma anistia geral, que precisa ser votada pelo Parlamento ainda esta semana. O alcance exato desta medida permanece incerto, mas gerou reações imediatas. Liberdade, liberdade!, gritavam familiares de presos políticos do lado de fora das prisões quando receberam a notícia. Ela também determinou o fechamento do temido Helicoide, prisão denunciada há anos como um centro sistemático de torturas. A expectativa geral é que a anistia resulte na libertação de centenas de presos políticos.
Até segunda-feira, seiscentos e oitenta e sete pessoas continuavam detidas por motivos políticos, segundo dados da ONG Foro Penal. Alfredo Romero, diretor da organização, alerta que anistia, em princípio, significa esquecimento, não perdão, rejeitando qualquer medida que possa resultar em impunidade para crimes graves. O medo imposto pelo regime de Maduro diminuiu sensivelmente, mas não desapareceu completamente. As pessoas ainda criticam o governo em sussurros, numa espécie de liberalização tática. O sistema está recalibrando o custo da repressão, conclui Aveledo, indicando que a transição venezuelana permanece frágil e sob vigilância constante.