Cão comunitário Orelha é torturado até a morte por adolescentes em Florianópolis
A morte trágica do cachorro comunitário conhecido como Orelha, que foi gravemente ferido e não resistiu aos ferimentos em um bairro nobre de Florianópolis, Santa Catarina, chocou a comunidade local e repercutiu em todo o país. Os principais suspeitos são quatro adolescentes, que atualmente estão sob investigação policial por este ato de extrema crueldade.
Caso não é isolado e envolve outro animal
Os mesmos jovens são apontados como possíveis agressores de outro cão comunitário, chamado Caramelo, que perambulava pela Praia Brava junto com Orelha. Felizmente, Caramelo conseguiu escapar de uma tentativa de afogamento, mas o destino de Orelha foi fatal. Enquanto as condições exatas em que esses ataques ocorreram ainda não foram totalmente esclarecadas pelas autoridades, especialistas já levantam um alerta preocupante.
Redes virtuais globais que incitam a tortura de animais
Existem redes virtuais globais que incentivam e incitam a tortura de animais, inclusive no Brasil. Essas comunidades fazem parte de um submundo digital maior, onde a adoção de comportamentos radicais se torna um símbolo de status não apenas entre adultos, mas também entre crianças e adolescentes. A primeira-dama Janja da Silva comentou sobre o caso, afirmando que "É um alerta doloroso sobre uma geração exposta, desde cedo, a discursos e conteúdos digitais que banalizam a violência e transformam a dor em entretenimento."
Por enquanto, não há indícios concretos de que os supostos autores das agressões contra Orelha e Caramelo tenham conexão direta com essas redes. No entanto, o caso reforça a necessidade urgente de famílias e instituições educarem os jovens sobre os direitos dos animais, protegendo-os da cooptação por ambientes virtuais maliciosos.
Zoosadismo: um fenômeno global e lucrativo
Uma das práticas incitadas por essas comunidades é o zoosadismo, que ocorre quando uma ou mais pessoas ferem ou torturam um animal por prazer, seja sexual ou de outra natureza. Isso pode incluir maltratar um bicho pelo divertimento próprio ou de terceiros, especialmente se a agressão for filmada e compartilhada na internet.
O procurador de Justiça Fábio Costa Pereira, do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul, explica que "A violência contra animais é só uma parte de um contexto mais amplo, de um conjunto de comportamentos que funcionam como marcadores de processos de radicalização e de perda da noção das consequências no mundo real." O MPRS mantém um projeto dedicado à prevenção da radicalização e violência extrema entre menores de idade.
Além disso, o zoosadismo tem se mostrado um negócio lucrativo em escala global. Em 2023, uma investigação da BBC revelou uma rede internacional de práticas sádicas contra macacos, que se estendia da Indonésia aos Estados Unidos. Centenas de clientes em países como EUA e Reino Unido pagavam indonésios para filmar a tortura e morte de filhotes de macaco-de-cauda-longa.
No ano passado, a CNN expôs que esses grupos estavam expandindo seu alcance e migrando para plataformas mais populares, como Telegram, X e YouTube. O canal americano destacou uma comunidade dedicada a mutilar, torturar e matar gatos para ganhar dinheiro, utilizando técnicas de extrema violência.
Críticas às plataformas digitais e aumento de denúncias
Organizações de defesa dos animais têm chamado atenção para a disseminação dessas redes na internet, pedindo que as plataformas aumentem o controle sobre esse tipo de conteúdo. As publicações chegam a reunir dezenas de milhares de visualizações, com usuários sugerindo ou encomendando atos ainda mais cruéis.
Uma coalizão internacional de 45 organizações dedicada ao tema afirma ter recebido denúncias de mais de 80 mil links por suspeita de abuso animal apenas em 2024. A análise de uma amostra de 2 mil links mostrou que os conteúdos retratavam mil indivíduos de 53 espécies diferentes, sendo os mais comuns:
- Macacos
- Gatos
- Cachorros
Pelo menos 108 animais eram de espécies ameaçadas de extinção, como orangotangos, gorilas e chimpanzés. Segundo a coalizão, apenas 36% da amostra havia sido removida pelas plataformas, com o Facebook e o Instagram, ambos da Meta, hospedando quase nove a cada dez conteúdos denunciados.
Legislação brasileira e aumento de processos
No Brasil, maltratar animais é crime, com penas que variam de três meses a um ano de detenção. Para cães e gatos, a pena é mais severa desde 2020, podendo chegar a dois a cinco anos de reclusão. No entanto, ativistas reclamam que as punições por maus-tratos contra animais silvestres são frequentemente revertidas em medidas alternativas.
Um levantamento de dados do Conselho Nacional de Justiça realizado pelo jornal O Globo mostrou que, desde 2021, houve um salto de 1.400% nos processos por maus-tratos de animais no país. Isso ocorreu após a introdução de punições mais duras para violência contra cães e gatos.
Outro caso recente de violência contra animal comunitário
Infelizmente, o caso de Orelha não é único. Na terça-feira, 27 de janeiro, outro cachorro comunitário, chamado Abacate, foi baleado intencionalmente em Toledo, no Paraná. O animal teve o intestino perfurado e morreu na mesa de cirurgia veterinária. A polícia local já investiga o ocorrido, demonstrando que a violência contra animais comunitários continua a ser uma triste realidade em diversas regiões do Brasil.
Esses episódios reforçam a importância de combater não apenas os atos de crueldade em si, mas também as redes virtuais que os incentivam, além de promover uma educação mais efetiva sobre os direitos animais entre as novas gerações.