Morte do cão Orelha: psicanalista analisa raízes da violência juvenil em Florianópolis
Cão Orelha: psicanalista explica violência juvenil em SC

Morte do cão Orelha: psicanalista analisa raízes da violência juvenil em Florianópolis

O brutal assassinato do cachorro comunitário Orelha, ocorrido na Praia Brava, em Florianópolis, Santa Catarina, chocou o país e levantou uma questão profunda: o que motiva adolescentes a cometerem atos de extrema crueldade contra seres indefesos? A agressão, supostamente perpetrada por jovens, resultou na morte do animal e gerou uma onda de indignação nas redes sociais, com a hashtag #JustiçaPorOrelha ganhando destaque.

A psicanalista Elizandra Souza, autora do livro "As sombras do Eu – Psicopatologias da Maldade", reflete sobre o caso, explorando as raízes psíquicas e sociais por trás de comportamentos tão violentos. Segundo ela, a adolescência é um período de reestruturação subjetiva, onde a testagem de limites é comum, mas quando isso se transforma em violência extrema, é necessário investigar fatores mais profundos.

Falhas no superego e simbolização

Do ponto de vista psicanalítico, Souza destaca que tais atos podem estar ligados a falhas na constituição do superego, a instância responsável por internalizar a noção de lei, certo e errado. Quando essa estrutura é fragilizada, o indivíduo pode ter dificuldade em reconhecer limites, abrindo espaço para transgressões graves.

Outro aspecto crucial é a falha de simbolização, onde o adolescente não consegue expressar angústias ou frustrações por meio da linguagem ou outras formas simbólicas, como brincadeiras ou arte. Isso pode levar à "passagem ao ato", uma ação não mediada pela palavra, que surge como tentativa desesperada de aliviar tensões internas.

Desumanização e fatores sociais

A desumanização da vítima também desempenha um papel central. Quando um animal, como o cão Orelha, deixa de ser percebido como um ser vivo capaz de sentir dor, a crueldade se torna possível. O outro é tratado como objeto, facilitando a expressão de poder e maldade.

Souza ressalta que comportamentos criminosos não surgem do nada. Eles podem estar ligados a:

  • Fragilidades narcísicas profundas
  • Necessidade intensa de autoafirmação
  • Falhas na função paterna simbólica, que representa a lei e os limites
  • Identificação com agressores, reproduzindo violências sofridas ou presenciadas
  • Exposição excessiva a conteúdos violentos sem mediação crítica

Esses fatores contribuem para a dessensibilização, onde o sofrimento alheio é banalizado, um fenômeno que a filósofa Hannah Arendt chamou de "banalidade do mal".

Prevenção e responsabilização

Diante desse cenário, a estruturação do sujeito requer esforços múltiplos. A família tem papel fundamental na construção de uma lei interna, ensinando respeito e limites. A escola pode atuar como espaço de mediação de conflitos, oferecendo alternativas para simbolizar a agressividade. Já as instituições de Justiça devem garantir a responsabilização, ajudando o adolescente a compreender o impacto de seus atos.

Casos de crueldade contra animais, como o do cão Orelha, devem ser vistos como sintomas de um mal-estar mais amplo e sinais de alerta. Muitas vezes, essa violência anuncia trajetórias criminosas futuras. Investigar causas, responsabilizar os envolvidos e oferecer formas de elaboração do sofrimento é crucial para prevenir que esses jovens se tornem adultos marcados pela repetição do crime.

Refletir sobre esses atos não significa relativizar sua gravidade, mas compreender que a prevenção da violência passa por entender suas origens psíquicas, sociais e simbólicas. Enquanto isso, a sociedade clama por justiça para Orelha, um caso que expõe as sombras da violência juvenil no Brasil.