Não é apenas uma sensação: a associação entre o calor intenso do verão e o aumento das crises de enxaqueca é real e tem explicações fisiológicas. Em um país de clima predominantemente quente como o Brasil, compreender essa relação é fundamental para quem sofre com essa condição neurológica crônica.
Por que o calor é um gatilho para a enxaqueca?
A enxaqueca é uma doença que torna o cérebro mais sensível a estímulos ambientais. No verão, essa sensibilidade é colocada à prova por uma combinação de fatores: calor intenso, exposição solar, mudanças bruscas de temperatura e maior risco de desidratação.
Pacientes com enxaqueca frequentemente apresentam uma sensibilidade térmica aumentada. Isso significa que tanto as altas temperaturas quanto as variações rápidas no termômetro podem facilitar o surgimento da dor de cabeça incapacitante.
Outro mecanismo importante é a disautonomia, uma dificuldade do sistema nervoso em regular funções automáticas do corpo. Em dias muito quentes, isso pode fazer com que a pressão arterial caia mais do que o normal, levando a tonturas, mal-estar e, claro, crises de enxaqueca.
O papel crucial da hidratação
Em ambientes quentes, o corpo sua mais para tentar manter a temperatura estável. Essa perda acelerada de líquidos pode levar rapidamente à desidratação, um fator de risco conhecido para as crises.
A desidratação gera estresse nas células cerebrais, aumentando a liberação de certos neurotransmissores. Esse processo favorece a hiperexcitabilidade cerebral, característica central da enxaqueca, e pode ser o ponto de partida para uma crise. Portanto, o calor não age de forma isolada, mas sim desencadeando uma cascata de alterações no organismo.
Medidas práticas para se proteger no verão
Algumas estratégias simples podem ajudar a minimizar o impacto do verão:
- Manter uma hidratação adequada ao longo de todo o dia, não apenas quando sentir sede.
- Evitar a exposição solar direta nos horários de pico, especialmente entre 10h e 16h.
- Usar acessórios de proteção como chapéu, boné e óculos escuros.
- Buscar ambientes mais frescos e evitar transições bruscas de temperatura (como sair de um ambiente com ar-condicionado forte para o calor externo).
Essas medidas ajudam a reduzir o estresse no organismo. No entanto, o neurologista Tiago de Paula, especialista em cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), ressalta um ponto crucial: "A principal forma de proteção não é viver evitando o calor".
O tratamento como principal aliado
O controle efetivo da doença é o fator mais importante. Quando a enxaqueca está bem controlada com tratamento adequado, o paciente se torna menos sensível a todos os gatilhos, inclusive os relacionados à temperatura.
O tratamento ideal deve ser individualizado e multidisciplinar, podendo combinar medicamentos orais, aplicações de toxina botulínica, ajustes no estilo de vida e acompanhamento médico contínuo. Antes do controle da doença, o paciente acumula restrições. Após o tratamento correto, essas limitações diminuem, permitindo uma vida mais plena, inclusive com atividades típicas do verão.
O objetivo final vai além de reduzir a frequência e a intensidade das crises. Um bom controle da enxaqueca ajuda a evitar impactos mais amplos na qualidade de vida, como alterações no sono, dificuldades de concentração e prejuízos nas atividades sociais e profissionais.