Uma única frase ouvida na adolescência foi suficiente para desencadear mais de uma década de dependência química na vida de Júlio César Borges de Oliveira. Anos depois, outras palavras, ditas em um contexto de acolhimento, foram capazes de ressignificar sua trajetória e transformar a dor em um instrumento de conscientização para outros jovens.
Da palavra que aprisionou à palavra que libertou
Júlio relembra que, aos 15 anos, a influência negativa de um conselho o levou para o mundo das drogas. "Há 15 anos, uma palavra que foi dada na minha vida transformou ela negativamente. Eu ouvi de uma pessoa que usar droga era bom", conta o palestrante. Ele descreve esse período como um vazio: "Se minha vida fosse um livro, eu teria 10 anos de páginas brancas, por conta de uma palavra que eu recebi com 15 anos".
O ponto de virada veio através de um gesto simples, mas profundamente significativo. Um encontro casual com um homem que ele nunca havia visto antes mudou tudo. "Ele me soltou algumas palavras, olhou no meu olho e me abraçou", relembra Júlio. Aquele abraço simbolizava um gesto que ele desejava ter feito com sua mãe antes de ela falecer, despertando uma cura emocional. "Aquilo fez com que a minha cabeça, o meu coração, ele acordasse para coisas que eu não estava enxergando".
O poder da escuta: o trabalho do CVV
O impacto transformador da linguagem não se limita a histórias individuais. Ele se materializa diariamente em serviços como o Centro de Valorização da Vida (CVV). A instituição, que oferece apoio emocional e prevenção do suicídio, realiza mais de 2,4 milhões de atendimentos por ano em todo o Brasil. Apenas em dezembro de 2024, foram registradas cerca de 203 mil ligações para o serviço, que é gratuito, sigiloso e funciona 24 horas por dia através do número 188.
A voluntária Helena Fujinohara testemunha a mudança que um diálogo acolhedor pode promover. "São somente palavras, escritas ou ditas... Em muitos momentos é possível observar uma pessoa que chega com bastante raiva, nervosa. E aí conforme a gente vai conversando, ela vai se acalmando, as palavras vão se transformando", explica. O serviço do CVV é baseado justamente nesse poder de escuta e acolhimento, sem julgamentos.
Transformando a própria história em missão
Após superar sua batalha contra o vício, Júlio César fundou o projeto Escolhas. Hoje, ele percorre escolas e instituições usando sua história pessoal como ferramenta de prevenção. Sua missão é usar as palavras de forma positiva, algo que ele não recebeu na juventude. "Aqui eu uso as palavras da forma certa, correta. Então eu tento trazer o melhor estímulo, tento trazer esperança", ressalta.
Especialistas reforçam que a linguagem nunca é neutra. Ronaldo Alexandrino, professor de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica que a comunicação é central na construção da nossa realidade. "Toda a nossa vida em sociedade, o modo como entendemos as relações humanas e como convivemos com o outro parte da comunicação. É na comunicação que a gente cria contextos e realidades", afirma. Para ele, as palavras podem tanto reforçar trajetórias negativas quanto transformá-las, dependendo do contexto e da intenção de quem as profere.
A história de Júlio integra a série especial "O poder das palavras", exibida pela EPTV, afiliada da TV Globo, que explora como a linguagem influencia decisões, comportamentos e processos de superação.