Em um intervalo de pouco mais de um ano, dois ex-presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, vivenciaram episódios médicos semelhantes: quedas com impacto na cabeça, diagnosticadas como traumatismo craniano leve (TCE). Apesar do ponto de partida idêntico, os desdobramentos clínicos foram distintos, ilustrando como esse tipo de lesão pode evoluir de maneira diferente, especialmente na população idosa.
Dois episódios, mecanismos semelhantes
No final de 2024, o presidente Lula sofreu uma queda no Palácio da Alvorada, batendo a cabeça e apresentando um corte na nuca. Exames iniciais detectaram um pequeno sangramento. Contudo, novas avaliações realizadas dois meses depois revelaram um acúmulo de sangue entre o cérebro e a membrana chamada dura-máter, que passou a comprimir o órgão. Diante desse quadro, Lula foi submetido a uma trepanação para drenar um hematoma de aproximadamente três centímetros.
Já em janeiro de 2026, o ex-presidente Jair Bolsonaro caiu dentro de uma unidade da Polícia Federal, onde cumpre pena, recebendo também o diagnóstico inicial de traumatismo craniano leve. Ele foi encaminhado ao hospital DF Star, em Brasília, para realizar três exames na região da cabeça: tomografia computadorizada de crânio, ressonância magnética de crânio e eletroencefalograma, que irão definir seu quadro clínico com precisão.
Segundo a neurocirurgiã Diana Santana, do Hospital Sírio-Libanês, o mecanismo inicial dos dois casos é praticamente idêntico. “Foram mecanismos de trauma bastante parecidos. Ambos sofreram quedas com impacto na cabeça, levando ao que chamamos de TCE”, explica a especialista.
Por que os desfechos podem ser diferentes?
A principal divergência, de acordo com os médicos, reside no que ocorre após o impacto, e o envelhecimento é um fator crucial. Com a idade, o cérebro passa por um processo natural de atrofia, diminuindo levemente de tamanho e ficando mais afastado do osso do crânio. Esse espaço criado é chamado de ‘espaço subdural’.
Nessa região, existem pequenos vasos sanguíneos, conhecidos como vasos em ponte. Com o aumento desse espaço, há maior chance de o cérebro sofrer um movimento de “chacoalhada” durante um impacto, mesmo que leve. “Quando ocorre um traumatismo, há um movimento de aceleração e desaceleração do cérebro dentro dessa membrana, o que pode levar ao rompimento desses vasos”, detalha Santana.
Foi exatamente isso que aconteceu com Lula. O rompimento de um vaso levou a um sangramento lento e contínuo, que se acumulou ao longo de semanas formando um hematoma que exigiu intervenção cirúrgica. “O problema é que isso nem sempre dá sintomas imediatos. Esse coágulo pode levar semanas ou até meses para atingir um volume suficiente para comprimir o cérebro”, alerta a neurocirurgiã. Quando a compressão acontece, surgem sinais como fraqueza em um lado do corpo, alterações na fala e na sensibilidade.
No caso de Bolsonaro, o cenário, até o momento, é outro. Houve a queda e o atendimento inicial, mas ainda não há informações públicas que confirmem a presença de sangramento ou coágulo intracraniano. A médica Madalena Soares reforça a importância da investigação complementar: “Em pacientes idosos, é imprescindível realizar exames de imagem, como a tomografia, para verificar se houve algum sangramento, fratura ou alteração cerebral”. Ela ressalta que, sem esses exames, não é possível prever a necessidade de procedimentos adicionais.
Quedas em idosos: um problema de saúde pública
O traumatismo craniano decorrente de quedas é uma preocupação significativa para a saúde do idoso. Além de tropeços em móveis mal posicionados, tapetes soltos e falta de apoio em banheiros, as quedas podem ser resultado do enfraquecimento natural de ossos e músculos, que leva à perda de equilíbrio.
Segundo dados do Ministério da Saúde, a prevalência de quedas chega a 25% na população idosa que mora em áreas urbanas. Após uma batida na cabeça, é fundamental observar a resposta do paciente, o nível de dor e os machucados visíveis. Sintomas de alerta que exigem atenção médica imediata incluem:
- Dor de cabeça persistente mesmo com medicação
- Confusão mental ou desorientação
- Perda de força em qualquer parte do corpo
- Alterações agudas na visão
- Vômitos, náuseas ou sonolência excessiva
Para prevenir esses episódios, o Ministério da Saúde recomenda uma série de adaptações no ambiente doméstico, que é onde a maioria das quedas ocorre. As principais medidas de segurança são:
No quarto: manter iluminação e telefone próximos à cama, usar lençóis de materiais antiderrapantes como algodão e evitar deixar o chão desorganizado.
Na sala e corredores: organizar os móveis para criar caminhos livres, instalar interruptores de fácil acesso e fixar tapetes com dupla face adesiva.
No banheiro: instalar barras de apoio, usar tapetes antiderrapantes e optar por boxes com paredes não deslizantes.
Nas escadas: garantir iluminação completa, instalar corrimãos em ambos os lados e colocar fitas antiderrapantes nos degraus.
Além das adaptações no lar, cuidados pessoais são igualmente importantes: realizar exames médicos anuais, manter uma dieta rica em cálcio e vitamina D, praticar atividades físicas para melhorar o equilíbrio e a força, e usar calçados adequados com sola antiderrapante.
Os casos recentes envolvendo figuras públicas de grande relevância nacional servem como um alerta para a população sobre os riscos silenciosos de traumas cranianos, especialmente entre os mais velhos, e reforçam a importância da prevenção e do monitoramento médico rigoroso após qualquer queda.