O governo da França tomou uma posição firme e anunciou que votará contra a ratificação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. A decisão foi comunicada oficialmente pelo presidente Emmanuel Macron nesta quinta-feira, 8 de janeiro de 2026.
Justificativa francesa: um acordo ultrapassado
Em um comunicado divulgado nesta quinta-feira, o Palácio do Eliseo deixou clara sua posição. O presidente Emmanuel Macron afirmou que o acordo UE-Mercosul é "um acordo de outra época". Segundo ele, as negociações se arrastaram por tempo excessivo e foram construídas sobre bases consideradas obsoletas pelo governo francês.
Macron reconheceu que a França é favorável ao comércio internacional e à diversificação de parceiros. No entanto, avaliou que os ganhos econômicos esperados com este pacto específico seriam limitados para o crescimento tanto da França quanto da Europa como um todo. "Isso não justifica expor cadeias agrícolas sensíveis e essenciais à nossa soberania alimentar", declarou o chefe de Estado, destacando o ponto central da preocupação francesa: a proteção do setor agropecuário local.
Contexto político e impacto econômico limitado
A decisão não é uma surpresa no cenário político interno francês. Macron citou que há uma "rejeição política unânime ao acordo na França", posição que ficou evidente durante debates recentes tanto na Assembleia Nacional quanto no Senado. A votação final sobre o texto do acordo está marcada para esta sexta-feira, 9 de janeiro.
Os números apresentados pela própria Comissão Europeia parecem ter influenciado a avaliação francesa. As projeções indicam que o PIB da União Europeia teria um aumento de apenas 0,05% até o ano de 2040 com a implementação do acordo. Um ganho considerado modesto frente aos riscos percebidos.
O presidente francês fez questão de reconhecer o trabalho da Comissão Europeia nas negociações, citando "avanços incontestáveis" no texto. Ainda assim, a conclusão foi de que o acordo, em sua forma atual, não atende aos interesses e às exigências contemporâneas da França e de seu setor produtivo.
O que significa essa posição para o futuro do acordo?
A oposição da França, uma das principais economias da UE, representa um obstáculo significativo para a entrada em vigor do acordo Mercosul-UE. A ratificação exige aprovação unânime de todos os estados-membros do bloco europeu, o que torna o voto contra de qualquer país um veto efetivo.
A posição francesa reflete uma tensão constante nas negociações comerciais da UE: o equilíbrio entre a abertura de mercados e a proteção de setores econômicos sensíveis internos, em especial a agricultura. O argumento da "soberania alimentar" tem ganhado cada vez mais força no debate político europeu.
O anúncio de Macron coloca o acordo em um impasse profundo. Sem a adesão da França, o pacto não pode seguir adiante na sua forma atual, levantando dúvidas sobre a necessidade de uma renegociação completa ou mesmo o arquivamento definitivo de um processo que já se estende por décadas.