Uma nova classe de medicamentos em formato de comprimido demonstrou capacidade de estimular a queima de gordura corporal mesmo quando o corpo está em repouso, além de preservar a massa muscular. Os resultados promissores, obtidos em testes com animais e em um estudo inicial com humanos, foram publicados na renomada revista científica Cell.
Como a nova pílula age de forma diferente
Ao contrário dos tratamentos tradicionais que ativam de forma ampla o sistema adrenérgico – o mesmo envolvido na resposta ao estresse –, a nova substância foi projetada com um mecanismo de ação mais inteligente e seletivo. Ela foi desenvolvida para "ligar" apenas um caminho específico de sinalização celular diretamente ligado ao metabolismo energético.
Na prática, essa abordagem, chamada de agonismo enviesado, permite que o medicamento ative apenas as vias celulares associadas aos benefícios desejados, evitando efeitos colaterais indesejados. Os principais efeitos observados são:
- Aumento da captação de glicose pelos músculos, mesmo sem depender da ação da insulina.
- Elevação do gasto energético e consequente redução da gordura corporal.
- Ausência de estímulo excessivo ao coração, evitando taquicardia e lesões cardíacas.
- Preservação da massa muscular, um desafio comum em tratamentos para perda de peso.
Resultados promissores em animais e humanos
Em testes com camundongos e ratos que apresentavam obesidade e diabetes, o composto experimental trouxe resultados significativos. Os animais tiveram melhora na tolerância à glicose, redução da gordura corporal e aumento do gasto de energia em repouso. De forma crucial, não houve aumento do tamanho do coração nem lesões cardíacas, mesmo após meses de uso contínuo.
Em modelos onde medicamentos à base de GLP-1 (como Ozempic e Wegovy) costumam provocar perda de massa magra, a nova substância conseguiu evitar a atrofia muscular, inclusive quando usada em combinação com esses fármacos.
O avanço para testes em humanos já começou. Em um ensaio clínico de fase 1, que avalia segurança, o medicamento foi testado em voluntários saudáveis e pessoas com diabetes tipo 2. Os resultados iniciais foram animadores: a pílula foi bem absorvida por via oral, não causou alterações relevantes na pressão arterial ou no ritmo cardíaco, os efeitos colaterais foram leves e não foram observados sinais de toxicidade cardíaca.
Próximos passos da pesquisa
Com o bom perfil de segurança estabelecido na fase 1, a pesquisa agora avança para estudos de fase 2. Estes novos ensaios terão como objetivo principal avaliar se o medicamento é realmente eficaz para o controle da glicose e a redução de peso em pacientes com obesidade e diabetes tipo 2.
Os cientistas também planejam medir com precisão a composição da perda de peso, verificando quanto dela vem efetivamente da gordura e se a massa muscular é mantida. Estudos de uso prolongado e testes de combinação com outras terapias, como os agonistas de GLP-1, também estão nos planos para verificar se a associação potencializa os resultados.
Se os próximos estudos confirmarem a eficácia e a segurança a longo prazo, essa estratégia pode representar um avanço significativo no tratamento de duas das maiores epidemias de saúde global, oferecendo uma opção oral, potente e com um perfil de efeitos colaterais mais favorável do que as terapias atuais.