Vaticano tentou asilo para Maduro na Rússia em 2023, revela jornal
Vaticano mediou asilo russo para Maduro, diz Washington Post

O jornal americano The Washington Post revelou que o cardeal italiano Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, atuou como mediador em uma tentativa de garantir asilo político na Rússia para o ditador venezuelano Nicolás Maduro no final do ano passado. A informação, baseada em documentos governamentais e entrevistas com cerca de 20 fontes anônimas, aponta para uma complexa negociação diplomática envolvendo Vaticano, Estados Unidos e Rússia.

Reunião confidencial na véspera de Natal

De acordo com a reportagem, a movimentação ocorreu na véspera de Natal de 2023. Nessa data, o cardeal Parolin convocou o embaixador dos Estados Unidos na Santa Sé, Brian Burch, para um encontro na Cidade do Vaticano. O objetivo principal do religioso era entender com detalhes os planos que Washington tinha para a Venezuela.

Durante a conversa, Parolin questionou se os Estados Unidos realmente buscavam uma mudança de regime no país latino-americano. O cardeal, que já serviu como embaixador do Vaticano em Caracas e tem um interesse especial pela nação, insistiu na necessidade de uma saída pacífica para a crise. Ele admitiu, contudo, que Maduro precisava deixar o poder.

A oferta russa e a ligação com a guerra na Ucrânia

Foi nesse contexto que Parolin apresentou a proposta. Ele teria informado ao embaixador Burch que a Rússia estava pronta para receber Maduro e pediu paciência aos americanos para evitar instabilidade e derramamento de sangue na Venezuela.

O documento sobre a reunião, citado pelo jornal, traz uma declaração ainda mais impactante. Parolin mencionou um rumor de que a Venezuela havia se tornado uma "peça fundamental" nas negociações entre Moscou e Kiev. A Rússia "abriria mão da Venezuela se estivesse satisfeita com a situação na Ucrânia". A análise é que, com o início da guerra em fevereiro de 2022, a Rússia diminuiu seu apoio a Caracas, e a oferta de asilo seria uma forma de garantir um acordo favorável no conflito europeu.

O cardeal também teria dito que Maduro parecia disposto a renunciar após as eleições de 2024, mas foi convencido a permanecer no poder por seu ministro do Interior, Diosdado Cabello, diante do cenário de repressão.

Frustração do Vaticano e desfecho surpreendente

Parolin expressou grande frustração com a falta de clareza dos planos finais dos EUA. Segundo os documentos, ele se disse "muito, muito, muito perplexo" e pediu que Washington estabelecesse um prazo para a saída de Maduro e oferecesse garantias à sua família.

No entanto, a mediação não teve sucesso. Dias depois da reunião, forças americanas bombardearam cidades venezuelanas, incluindo Caracas, e capturaram Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. O casal está agora em Nova York, onde enfrentará julgamento pela justiça americana por acusações de narcoterrorismo.

O Washington Post sugere que Maduro pode ter recusado o asilo devido às restrições financeiras na Rússia. Acredita-se que o ditador tenha fortunas em paraísos fiscais, provenientes do comércio de ouro venezuelano, às quais não teria acesso se estivesse no território russo.

Reações e contexto

O Vaticano confirmou ao jornal que houve negociações no período natalino, mas criticou a divulgação do conteúdo, afirmando ser "decepcionante que partes de uma conversa confidencial tenham sido divulgadas sem refletir com precisão o conteúdo". O Departamento de Estado americano e o porta-voz do Kremlin se recusaram a comentar o caso.

Parolin, descrito como forte candidato a suceder o Papa Francisco por sua vasta experiência diplomática, liderava as casas de apostas para ser o novo líder da Igreja Católica na época. A revelação joga luz sobre o papel diplomático discreto, mas ativo, da Santa Sé em conflitos internacionais de alta complexidade.