Em um tom ao mesmo tempo conciliatório e de denúncia, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, declarou nesta quinta-feira, 1° de janeiro de 2026, que está disposto a negociar um acordo com os Estados Unidos para o combate ao narcotráfico. A declaração, no entanto, veio acompanhada da reiterada acusação de que o verdadeiro objetivo norte-americano é forçar uma mudança de poder em Caracas para se apossar dos recursos naturais venezuelanos, especialmente o petróleo.
Disposição para dialogar e acusações mútuas
A entrevista de Maduro ocorreu pouco depois do governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump, confirmar uma operação da Agência Central de Inteligência (CIA) em uma área portuária venezuelana supostamente usada por cartéis de drogas. O presidente venezuelano evitou comentar diretamente sobre a ação militar, limitando-se a dizer que "isso pode ser algo sobre o qual falaremos daqui a alguns dias".
Maduro afirmou que o plano dos EUA é se impor "por meio de ameaças, intimidação e força". Apesar da retórica dura, ele estendeu uma mão para negociações. "O governo dos EUA sabe... que se eles quiserem discutir seriamente um acordo para combater o narcotráfico, estamos prontos", declarou. Ele também mencionou abertura para investimentos americanos no setor petrolífero, citando o caso da Chevron como exemplo.
Cenário de tensão militar no Caribe
A relação entre os dois países vive um momento de extrema tensão. No final de outubro, Trump revelou ter autorizado a CIA a conduzir operações secretas dentro da Venezuela. Fontes próximas à Casa Branca indicam que o Pentágono apresentou ao presidente opções que incluíam ataques a instalações militares venezuelanas, como pistas de pouso, alegando vínculos entre setores das Forças Armadas e o tráfico de drogas.
Os Estados Unidos acusam Maduro de liderar o chamado Cartel de los Soles, designado como organização terrorista estrangeira em novembro, e oferecem uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levem à sua captura. A retórica se estende a outros líderes regionais, como o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, chamado por Trump de "líder do tráfico de drogas".
Paralelamente, intensificam-se os ataques a barcos vinculados ao narcotráfico no Caribe e no Pacífico, com o governo americano os classificando como ações contra "Organizações Terroristas Designadas". Ao menos 83 tripulantes foram mortos nessas operações, que Trump descreveu como "uma grande explosão na área do cais" na Venezuela e bombardeios a "todos os barcos" envolvidos.
Mobilização militar e questionamentos internos
Há poucas semanas, altos militares americanos apresentaram a Trump planos atualizados de operações contra a Venezuela, que incluíam até mesmo ataques por terra. Essa movimentação ocorre em meio a uma crescente presença militar dos EUA na América Latina.
Um porta-aviões, destróieres com mísseis guiados, caças F-35, um submarino nuclear e cerca de 6.500 soldados foram deslocados para a região do Caribe, em um claro sinal de pressão sobre o governo Maduro. A Organização das Nações Unidas (ONU) classificou algumas dessas ações como "execuções extrajudiciais".
No entanto, dados das Nações Unidas parecem enfraquecer a justificativa central da "caça às drogas". O Relatório Mundial sobre Drogas de 2025 indica que o fentanil, principal responsável pelas overdoses nos EUA, tem origem no México, e não na Venezuela. A cocaína consumida no país vem majoritariamente da Colômbia, Bolívia e Peru.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos mostrou que o apoio público americano a essas operações é limitado. Apenas 29% dos americanos apoiam o uso das Forças Armadas para matar suspeitos de narcotráfico sem processo judicial. Entre os republicanos, 58% apoiam, enquanto 75% dos eleitores democratas são contra.
Maduro informou que sua última conversa com Trump foi em 12 de novembro, descrita como "agradável", mas ponderou que "desde então a evolução não tem sido agradável. Vamos esperar". O futuro das relações bilaterais e a escalada no Caribe permanecem incertos, com um delicado jogo de poder em curso.