Em todo o planeta, a transição do dia 31 de dezembro para o primeiro dia de janeiro é celebrada com uma explosão de cores nos céus, música alta, festas, abraços e brindes coletivos. Mas poucos conhecem a origem dessa tradição universal. A decisão de marcar a virada do ano nessa data específica é fruto de uma longa jornada histórica, que envolve rituais da Roma Antiga, um imperador famoso e a intervenção de um papa no século XVI.
As Raízes Pagãs no Império Romano
A escolha do mês de janeiro não foi aleatória. Para os antigos romanos, este período tinha um significado religioso profundo, pois era consagrado ao deus Janus – ou Jano, em português. É daí que vem o termo latino Ianuarius, que deu origem ao nome "janeiro".
Na mitologia romana, Janus era representado como uma divindade de duas faces, simbolizando os começos e os fins, as transições e as portas. "Ele está associado a olhar tanto para a frente quanto para trás", explica Diana Spencer, professora da Universidade de Birmingham, na Inglaterra. "Portanto, se existe um momento no ano para decidir que 'aqui começamos de novo', a lógica aponta para este."
O período também possuía uma ressonância prática e simbólica poderosa na Europa. Ele coincide com a época em que os dias começam a ficar progressivamente mais longos, após o solstício de inverno no Hemisfério Norte. "Para Roma, isso era muito significativo, pois vinha depois daqueles dias terrivelmente curtos, quando o mundo estava escuro, frio e nada crescia", complementa a especialista. "Era um tipo de período de pausa e reflexão."
À medida que o Império Romano expandia seu poder e território, seu calendário e suas tradições, incluindo a celebração do ano novo, foram disseminados por vastas regiões.
Cristianismo e a Disputa pela Data
Com a queda de Roma e a ascensão da Igreja Católica como força dominante na Idade Média, a natureza pagã da festa de 1º de janeiro começou a ser questionada. Em várias regiões onde o cristianismo predominava, a data passou a ser vista como excessivamente ligada a rituais antigos e não-cristãos.
Diante disso, surgiu um forte movimento para transferir a celebração do Ano Novo para o dia 25 de março. Essa data marca a Anunciação, quando, segundo a tradição cristã, o arcanjo Gabriel apareceu à Virgem Maria para anunciar que ela daria à luz Jesus.
"Embora o Natal seja quando Cristo nasce, a Anunciação é o momento em que se revela a Maria que ela vai dar à luz uma nova encarnação de Deus", detalha Diana Spencer. "Este é o instante em que a história de Cristo realmente começa, por isso faria sentido que o novo ano começasse aí."
A Reforma Definitiva do Calendário Gregoriano
A disputa pela data só foi resolvida muitos séculos depois. No século XVI, o papa Gregório 13º promoveu uma grande reforma no calendário para corrigir imprecisões do antigo modelo juliano. O novo sistema, batizado de calendário gregoriano em sua homenagem, restabeleceu oficialmente o 1º de janeiro como o dia de Ano Novo nos países católicos.
No entanto, nações que haviam rompido com a autoridade papal, como a Inglaterra protestante, resistiram à mudança. Os ingleses continuaram a celebrar a passagem do ano em 25 de março até 1752. Foi somente nesse ano que um ato do Parlamento britânico alinhou o país ao resto da Europa, adotando definitivamente o calendário gregoriano e sua data de reveillon.
Hoje, a esmagadora maioria das nações ao redor do globo segue o calendário gregoriano. É por causa dessa decisão tomada há mais de dois milênios, reforçada por um papa no século XVI, que, a cada 31 de dezembro, os relógios marcam a meia-noite e os céus de todo o mundo se iluminam com fogos de artifício, celebrando um novo ciclo que começa, simbolicamente, sob o signo do deus das transições, Janus.