A fronteira entre Brasil e Venezuela, em Pacaraima, norte de Roraima, é o ponto de partida para milhares de venezuelanos que fogem da crise política, econômica e humanitária de seu país. A menos de um quilômetro da linha geográfica que separa as duas nações, eles encontram o primeiro posto de atendimento, onde se inicia oficialmente a jornada pela permanência legal no Brasil.
O caminho da interiorização
Esse processo é coordenado pela Operação Acolhida, força-tarefa do Exército criada em 2018 pelo governo federal, com apoio de organizações internacionais. A operação é responsável pelo ordenamento da fronteira, acolhimento e, principalmente, pela interiorização – política que redistribui os migrantes para outras cidades brasileiras.
Até a publicação desta reportagem, mais de 150 mil venezuelanos foram interiorizados por meio do programa, sendo levados para aproximadamente 1.100 municípios em todo o país. Santa Catarina é o estado que mais recebeu pessoas através dessa iniciativa.
Da chegada ao novo destino
Ao chegarem em Pacaraima, os migrantes passam por cadastro, apresentação de documentos e triagem básica de saúde, incluindo vacinação. Enquanto aguardam, ficam em abrigos temporários administrados pelo Exército. Nessa fase, informam se possuem oferta de emprego ou familiares em outras regiões, o que facilita a inclusão no programa.
Posteriormente, seguem para Boa Vista, onde o atendimento se amplia. Na capital, aqueles com trabalho garantido ou rede de apoio entram na fila para transferência. Os demais são acolhidos em abrigos de trânsito e podem participar de cursos de qualificação profissional, em parceria com instituições como o Senai.
O comandante da força-tarefa em Roraima, general de divisão José Luís Araújo dos Santos, informou que a operação mantém seis abrigos em Pacaraima e Boa Vista, abrigando atualmente cerca de 5,8 mil pessoas recém-chegadas da Venezuela.
Histórias de recomeço e desafios persistentes
A interiorização representa a esperança de um novo início. É o caso do pedreiro Daniel Torres, de 39 anos, que após quatro dias de viagem chegou a Pacaraima e sonha em se reunir com o irmão em Macapá, no Amapá. "Quero recomeçar a vida, na Venezuela não dava mais para ficar", disse.
Outra história é a de Marjorie Cabrera, de 36 anos, que vive há cinco anos no Brasil. Ela voltou a Pacaraima para buscar as filhas e o irmão, que agora seguirão com ela para São José (SC). "Aqui já é a minha vida, não tem como deixar o que eu tenho para voltar para a Venezuela", afirmou.
No entanto, especialistas alertam que a jornada é complexa. João Carlos Jarochinski Silva, pesquisador e diretor do Centro de Ciências Humanas da UFRR, explica que a migração forçada traz desafios que vão além da documentação. "Não é só ter documento e ‘zerar’ a vida. Há perdas acumuladas, dificuldade de comprovar qualificações e desafios de integração", avalia.
Ele destaca que, apesar de a interiorização aliviar a pressão na fronteira e atender demandas por mão de obra em alguns estados, ainda persistem problemas como o descompasso entre a qualificação dos migrantes e as vagas ofertadas, além da necessidade de melhor articulação entre políticas públicas.
Cenário atual e números da migração
Dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) mostram que quase 1 milhão de venezuelanos entraram no Brasil entre 2018 e 2025. A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos norte-americanos no início de janeiro gerou um momento de incerteza, mas a Operação Acolhida afirmou estar preparada para cenários de aumento do fluxo.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, a operação informou que mantém monitoramento constante na fronteira e que a situação era considerada estável. "As equipes seguem atuando de forma permanente, acompanhando o movimento e garantindo o ordenamento da fronteira e a segurança da população roraimense", disse o comando.
O general José Luís destacou a dimensão do trabalho humanitário: "Cerca de 80 mil pessoas foram recepcionadas, com mais de 600 mil atendimentos [em 2025], garantindo documentação para viver no Brasil com cidadania". A atuação também avançou na área de saúde, com mais de 7 mil pessoas vacinadas.