Menina autista de 4 anos é encontrada com vida após 48 horas desaparecida em mata de Minas Gerais
O desaparecimento de Alice Maciel Lacerda Lisboa, de apenas 4 anos, transformou a rotina de Jeceaba, uma pequena cidade na Região Central de Minas Gerais, em uma força-tarefa marcada por angústia e esperança. A criança, que é autista não verbal e não utiliza a fala para se comunicar, foi encontrada com vida após um intenso trabalho que mobilizou mais de 100 pessoas, incluindo bombeiros, policiais e voluntários da comunidade.
Como Alice desapareceu no sítio da avó
Alice foi vista pela última vez na tarde de quinta-feira, por volta das 14h30, no sítio da avó, localizado na zona rural de Jeceaba. Segundo relatos do tio da menina, Luis Felipe Maciel Morais, ela estava com a avó, o avô e o irmão mais novo, de três anos, quando se afastou do local em um intervalo de tempo muito curto, sem que os familiares percebessem. "A varanda é toda fechada. Em questão de uma distração de um minuto, ela abriu o portão e saiu. Em pouco tempo eles deram falta dela, foram lá fora, mas não viram mais. Isso nunca tinha acontecido. quando ela sai, ela gosta de ir pra área da piscina e não tem o costume de sair assim", explicou o tio. Imediatamente, os parentes acionaram o Corpo de Bombeiros e iniciaram buscas pelos arredores.
Primeiras buscas e desafios enfrentados
Na noite de quinta-feira, o Corpo de Bombeiros, juntamente com familiares, vizinhos e moradores da região, começou a procurar por Alice em áreas próximas à casa da avó, percorrendo trilhas, estradas e terrenos abertos. No primeiro dia, foram realizadas buscas noturnas com cão de odor específico e drones equipados com câmeras térmicas. A área foi demarcada e dividida entre equipes mistas para otimizar os esforços.
Na manhã de sexta-feira, o Corpo de Bombeiros assumiu a coordenação da operação, com apoio da Polícia Militar e da Polícia Civil. As estratégias foram definidas considerando o perfil da criança, que é autista não verbal, e as características da região. Os bombeiros destacaram que a diversidade do terreno, com encostas íngremes, áreas de pastagem e mata fechada, dificultou significativamente os trabalhos e a leitura térmica dos drones. Além disso, a chuva intermitente também atrapalhou as buscas, aumentando a preocupação com a segurança da menina.
Reforço das equipes e ampliação da área de buscas
Inicialmente, as buscas se concentraram em um raio de até 600 metros do sítio da família, mas, com o passar das horas e a falta de notícias sobre o paradeiro de Alice, a área de atuação foi ampliada. Na sexta-feira, a exploração incluiu novos pontos, reavaliação de locais já vistoriados e realinhamento das estratégias entre os órgãos envolvidos. Ao todo, 21 militares atuaram em uma área equivalente a 40 hectares, o que corresponde a aproximadamente 40 campos de futebol, levando em conta a possibilidade de deslocamento da criança.
No segundo dia de buscas, a mãe de Alice, Karine Maciel, divulgou um apelo emocionado nas redes sociais, pedindo pela devolução da filha. "Pelo amor de Deus, se alguém pegou a minha filha, por favor, devolve ela. Ela é autista. Ela precisa de cuidado. Ela fica comigo o tempo inteiro. Ela só não fica comigo quando eu trabalho. Ela tem um irmão da idade dela. Os dois só ficam juntos. Ele tá sentindo muita falta dela, por favor. Se alguém pegou minha filha, devolve. Ou então, larga ela em algum lugar e avisa ela", disse a mãe. No fim da tarde de sexta-feira, o Ministério da Justiça emitiu um alerta sobre o desaparecimento, ampliando a visibilidade do caso.
Como Alice foi localizada pelos voluntários
O resgate de Alice ocorreu no sábado, quando voluntários que percorriam uma trilha precisaram parar devido a um problema mecânico em uma motocicleta e ouviram gritos vindos da mata. "Mocinha, calma. Pode ficar calma", disse um dos voluntários instantes antes de fazer contato visual com a criança. Guilherme Henrique Azevedo, operador de abastecimento e um dos voluntários, explicou o momento: "A gente estava lá embaixo e um amigo lá em cima. Eu falei com ele: 'Assovia... para ver que nós estamos aqui'. Assim que ele assobiou, eu escutei um grito. Pensei que fosse um pássaro. Gritou outra vez, eu falei: 'Isso é grito de criança'. A gente foi, subiu o pasto e a encontrou lá." Alice foi localizada a cerca de 2 km do sítio dos avós, deitada entre eucaliptos, atrás de uma cerca de arame, e foi retirada do local com segurança.
Achada com a roupa do dia do desaparecimento e condição de saúde
Quando foi encontrada, Alice usava a mesma roupa do dia em que desapareceu. Os bombeiros informaram que ela apresentava sinais vitais preservados e apenas algumas marcas de capim pelo corpo, mas estava com muita sede. Após o resgate, a menina foi encaminhada para atendimento hospitalar em Conselheiro Lafaiete, cidade próxima a Jeceaba. A Polícia Civil está investigando o caso para tentar descobrir se a menina desapareceu sozinha ou se houve envolvimento de outra pessoa no sumiço.
Alívio da família e celebração do reencontro
Após o encontro com a filha, a mãe de Alice, Karine Maciel, expressou gratidão a todos que ajudaram nas buscas. "Meu coração tá aliviado. Muito obrigado a todo mundo que compartilhou [os posts sobre o desaparecimento], que teve incentivo em compartilhar. Obrigada a todo mundo que tá a aqui: a Polícia Civil, as reportagens, Polícia Militar, bombeiros, todo mundo, principalmente os voluntários, todo mundo que tirou um tempo para ajudar", disse a mãe com a criança no colo. O pai de Alice, João Vitor Lacerda, também não conteve a emoção: "É só agradecer a comoção que a gente teve aí, de todas as pessoas que compartilharam, agradecer toda energia positiva que mandaram pra minha filha. E assim, que Deus abençoe todo mundo que pôde ajudar. Gratidão: única palavra pra se dizer mesmo, gratidão! Muito obrigado".
No domingo, a família realizou um almoço em comemoração ao reencontro, no sítio da avó da criança, local onde ela estava antes de desaparecer. Imagens enviadas pelos familiares mostram a menina almoçando, simbolizando o fim de um período de tensão e o retorno à normalidade. A história de Alice ressalta a importância da mobilização comunitária e da cooperação entre autoridades e voluntários em situações de emergência.