Justiça define audiências de processo criminal sobre rompimento em Brumadinho
Audiências de processo criminal de Brumadinho são definidas

Associações de vítimas se unem em Brumadinho para cobrar justiça e combater impunidade

Pela primeira vez na história, associações que representam vítimas de algumas das maiores tragédias recentes do Brasil se reuniram para fortalecer a luta por justiça e alertar sobre os riscos de impunidade. O encontro inédito ocorreu no Memorial de Brumadinho, na Grande Belo Horizonte, nesta sexta-feira, 23 de agosto, às vésperas do sétimo aniversário do rompimento da barragem da Vale no Córrego do Feijão.

Lançamento da "Carta à Justiça do Brasil" e união histórica

Durante o evento, as instituições participantes lançaram oficialmente a "Carta à Justiça do Brasil", um documento crucial que reúne demandas coletivas e alertas sobre a demora excessiva nos processos criminais relacionados a esses desastres. A carta também destaca o perigo real de repetição de novas tragédias no país, caso medidas efetivas não sejam tomadas.

Segundo os organizadores, esta reunião simboliza a ruptura do isolamento que cada grupo de vítimas vinha enfrentando separadamente. O objetivo central é mudar a forma como o Poder Judiciário brasileiro encara casos de grande repercussão nacional, pressionando por celeridade e transparência.

As associações que participaram do ato foram:

  • Associação dos Familiares de Vítimas do Incêndio do Ninho do Urubu (Afavinu)
  • Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem da Vale (Avabrum)
  • Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM)
  • Comissão dos Atingidos pela Barragem de Fundão (CAF)
  • Movimento Popular pela Soberania na Mineração (MAM)
  • Movimento Unificado das Vítimas da Braskem (MUVB)

Depoimento emocionante e esperança renovada

Maria Regina da Silva, servente escolar, vice-presidente da Avabrum e mãe de Priscila Elen – técnica de manutenção da Vale que faleceu no rompimento –, compartilhou sua perspectiva. Ela afirmou que a união entre as associações fortalece significativamente a esperança de que a justiça, mesmo lenta, finalmente será alcançada.

"A fé continua. Eu me recuso a acreditar que não vou viver essa justiça. Quero viver para ver essa justiça", declarou Maria Regina, ecoando o sentimento de muitas famílias que aguardam respostas há anos.

Avanços no processo criminal de Brumadinho e expectativas

Este ano também é marcado pela expectativa do início das audiências de instrução do processo criminal relacionado ao rompimento em Brumadinho. As datas estão sendo definidas pela Justiça, representando um passo crucial na busca por responsabilização.

Outro ponto de atenção destacado é o possível retorno do ex-presidente da Vale, Fábio Schvartsman, ao banco dos réus. Ele havia sido beneficiado por um habeas corpus em 2024, mas o Ministério Público interpôs recurso, e agora aguarda-se uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o caso.

Relembre as tragédias que motivaram a união

As associações presentes representam vítimas de cinco grandes desastres que abalaram o Brasil:

  1. Brumadinho (MG): O rompimento da barragem da Vale em 25 de janeiro de 2019 resultou em 272 mortes, com duas vítimas ainda desaparecidas. Sete anos depois, ninguém foi criminalmente responsabilizado. O processo criminal inicia suas audiências em fevereiro deste ano.
  2. Mariana (MG): Em 2015, o rompimento da barragem de Fundão liberou 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos, destruiu comunidades, causou 19 mortes e danos ambientais em Minas Gerais e Espírito Santo. Até o momento, não há condenações no Brasil, embora ações judiciais continuem em curso.
  3. Maceió (AL): A extração de sal-gema pela Braskem provocou o afundamento de cinco bairros a partir de 2018, afetando aproximadamente 60 mil pessoas e levando à desocupação de mais de 14 mil imóveis. A empresa reconheceu culpa em CPI do Senado, mas moradores ainda enfrentam disputas judiciais por indenizações.
  4. Boate Kiss (RS): O incêndio de 27 de janeiro de 2013 na Boate Kiss, em Santa Maria, deixou 242 mortos e 636 feridos. Após anos de reviravoltas judiciais, o STF restabeleceu as condenações dos quatro réus em 2025, com penas posteriormente reduzidas pelo Tribunal de Justiça gaúcho.
  5. Ninho do Urubu (RJ): Dez adolescentes do Flamengo morreram em um incêndio em 2019, em um alojamento irregular de contêineres. Em outubro de 2025, a Justiça absolveu todos os réus do processo por incêndio culposo com resultado morte.

Esta união histórica das associações de vítimas busca não apenas acelerar a justiça nos casos específicos, mas também criar um precedente para que tragédias futuras sejam prevenidas e responsabilizadas de forma mais eficiente pelo sistema judiciário brasileiro.