Governador do DF e dono do Banco Master apresentam versões divergentes sobre negociação
Em uma entrevista concedida à TV Globo nesta sexta-feira (30), o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), declarou categoricamente que nunca tratou com o empresário Daniel Vorcaro sobre as operações envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master. A afirmação do chefe do executivo local surge como uma resposta direta às declarações prestadas por Vorcaro, proprietário do Master, à Polícia Federal, nas quais ele mencionou conversas diretas com Ibaneis sobre a tentativa de aquisição do Master pelo BRB.
Negativa enfática e contradição nas versões
Ibaneis Rocha foi enfático ao negar qualquer envolvimento direto nas tratativas: "Nunca tratei com Vorcaro sobre as operações do BRB e do Master. Sempre quem me atualizava era o Paulo Henrique [ex-presidente do BRB]", afirmou o governador. Esta posição contrasta frontalmente com o depoimento de Daniel Vorcaro à PF, divulgado em vídeos pelo portal "Poder 360" na quinta-feira (29) e previamente reportado pelo blog de Andréia Sadi no g1.
Nos trechos da acareação, a delegada da PF Janaina Palazzo questionou Vorcaro especificamente sobre suas relações políticas e a possível compra do Banco Master. Ao ser indagado se conversou com o governador sobre a proposta de aquisição anunciada em março de 2025, Vorcaro respondeu: "Conversei em algumas poucas oportunidades, sim". Ele detalhou ainda que ambos se visitaram mutuamente em suas residências em Brasília, embora tenha ressaltado que os encontros foram "poucas vezes" e com conversas de caráter institucional.
Contexto das investigações e valores envolvidos
O caso ganha contornos ainda mais complexos diante das investigações da Operação Compliance Zero, deflagrada pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, que apura possíveis fraudes nas transferências financeiras entre as instituições. O BRB injetou a expressiva quantia de R$ 16,7 bilhões no Banco Master entre os anos de 2024 e 2025, movimentação que está sob escrutínio das autoridades.
Questionado sobre a declaração de Ailton Aquino, do Banco Central, de que o BRB pode necessitar de mais de R$ 5 bilhões para cobrir as operações com o Master, Ibaneis minimizou a afirmação: "Esse valor só poderá ser afirmado quando terminarem as auditorias, as vendas de carteiras e a liquidação da qual somos credores. O resto é chute". O governador também considerou "precipitado" falar em um rombo no BRB, destacando que o banco contratou profissionais qualificados para negociar as carteiras.
Repercussões e defesa do ex-presidente do BRB
Na semana anterior, quando o conteúdo do depoimento de Vorcaro veio à tona, Ibaneis Rocha já havia se manifestado, confirmando que se encontrou com o banqueiro em quatro ocasiões, mas negando que os assuntos do BRB e Master tenham sido pauta. "Em momento algum nas quatro vezes que o encontrei tratei de assuntos relacionados ao BRB/Master. Entrei mudo e saí calado. O único erro meu foi ter confiado demais no Paulo Henrique [Costa]", declarou o governador na ocasião.
Ibaneis atribuiu a condução de todo o processo ao ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, demitido após o início das investigações. O governador chegou a defender publicamente o ex-presidente, caracterizando seus erros como um "excesso de confiança", e minimizou a operação policial em curso. Esta postura de Ibaneis contrasta com a gravidade das investigações, que buscam esclarecer indícios de gestão fraudulenta nas transações bilionárias entre os bancos.
O depoimento de Daniel Vorcaro também trouxe à tona outros aspectos de suas relações políticas. Ao ser questionado pela delegada sobre quais outros políticos frequentavam sua residência, Vorcaro afirmou ter "amigos de todos os Poderes", mas não nominou indivíduos específicos, questionando a relevância da pergunta para o caso. Ele reiterou que não discutiu a aquisição com outros políticos além de Ibaneis e autoridades do Banco Central, e negou ter solicitado qualquer tipo de intervenção junto ao BC em favor do Master.
A divergência entre as versões do governador e do banqueiro coloca em evidência as complexas relações entre o poder público e o setor financeiro no Distrito Federal, em um caso que envolve vultosos recursos e investigações de alto impacto. O desenrolar das apurações da Polícia Federal e do Ministério Público promete trazer novos capítulos a esta trama, que mistura política, economia e possíveis irregularidades em operações bancárias de grande escala.