Mulher perde R$ 250 mil para golpistas que se passavam por curandeiros em São Paulo
Uma mulher de 54 anos foi vítima de um golpe sofisticado que resultou na perda de aproximadamente R$ 250 mil após ser enganada por criminosos que se apresentavam como curandeiros na cidade de São Paulo. Os estelionatários exploraram a fragilidade emocional da vítima, que estava abalada pela morte da mãe e enfrentava um quadro de depressão, prometendo ajudá-la com tratamentos espirituais.
Exploração da vulnerabilidade emocional
De acordo com os autos do processo, a vítima conheceu Márcia Kwiek, uma das principais envolvidas no esquema, em um shopping da Zona Oeste de São Paulo. Márcia se apresentou com um nome falso e, ao perceber o estado psicológico vulnerável da mulher, começou a se aproximar dela. Ela afirmou que a vítima estava com o "coração preto" e que possuía conhecimentos sobrenaturais capazes de promover uma "purificação" espiritual.
A partir de novembro de 2018, a vítima passou a frequentar a residência de Márcia, onde eram realizados supostos rituais de purificação descritos como incomuns e singulares. Durante os encontros, que se estenderam até janeiro de 2019, a mulher foi induzida a entregar:
- R$ 135 mil em dinheiro vivo
- Cerca de R$ 100 mil em joias valiosas
- R$ 15 mil em outros bens pessoais, incluindo celular e ar-condicionado
Os criminosos garantiam que esses valores seriam utilizados nos rituais e, ao final, seriam queimados como parte do processo de limpeza espiritual. A vítima, completamente enganada, acreditava que a destruição dos bens era necessária para superar seus problemas emocionais.
O ardiloso golpe do "tambor incandescente"
Em um dos episódios mais marcantes do esquema criminoso, a vítima levou uma grande quantia em dinheiro e joias até a casa de Márcia, acreditando que tudo seria destruído em um "tambor incandescente". No local, além de Márcia, estavam presentes:
- Seu marido, Alexander Jovanovich Queiroz
- Seus filhos, Larissa Kwiek Jovanovich Queiroz e Wladimir Kwiek Jovanovich Queiroz
- Sua nora, Kathleen Nicolini Iwanovich
Segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo, todos agiam em conjunto de forma coordenada. Os valores foram embrulhados em papel e, após anunciarem que seriam queimados, a vítima foi induzida a fechar os olhos e se deitar sobre um lençol branco no chão da sala. Nesse momento, ocorreu a troca dos embrulhos - um pacote diferente foi lançado ao fogo, enquanto o dinheiro e as joias permaneceram com os acusados.
Descoberta do golpe e ação judicial
Após o término dos supostos rituais, o estado emocional da vítima não apresentou qualquer melhora. "Após certo tempo, a vítima percebeu que a apatia e a depressão não cessaram", registrou o Tribunal de Justiça. Foi então que ela concluiu ter sido enganada e procurou a Polícia Civil, registrando ocorrência na 94ª Delegacia de Polícia da capital paulista.
Na decisão de primeira instância, o juiz Fernando Augusto Andrade Conceição destacou que, em crimes patrimoniais, a palavra da vítima tem especial relevância por ter vivenciado diretamente os fatos. O magistrado ressaltou a coerência entre o relato da ofendida e o conjunto de provas produzidas, comprovando que os réus agiram com dolo desde o início.
"Os acusados, imbuídos de dolo, através de várias reuniões, sempre com a finalidade de dar-lhe conforto espiritual, receberam em troca dinheiro, joias e outros bens materiais, tudo com a justificativa que seriam queimados, o que, na verdade, não aconteceu", escreveu o juiz em sua sentença.
Condenação mantida pelo Tribunal de Justiça
A defesa dos acusados tentou desclassificar o crime para curandeirismo, mas o argumento foi rejeitado tanto na primeira instância quanto no recurso ao Tribunal de Justiça. Para o magistrado, ficou claro que a intenção dos réus era obter vantagem patrimonial, utilizando-se de "uma manobra ardilosa consistente em trabalho espiritual para obterem vantagem patrimonial".
O juiz ainda destacou que o valor de R$ 250 mil era incompatível com qualquer ritual legítimo, evidenciando a natureza fraudulenta das ações. A defesa recorreu da sentença, mas em dezembro de 2025, a 4ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo manteve a condenação por unanimidade.
No acórdão, os desembargadores afirmaram que houve coautoria inequívoca e que os réus atuaram de forma conjunta para induzir e manter a vítima em erro. Para o tribunal, o ardil esteve na exploração da credulidade da vítima e na oferta de rituais de purificação "com estribo na debilidade psicológica da ofendida".
O tribunal afastou definitivamente a tese de prática religiosa legítima e entendeu que eventual curandeirismo foi apenas crime-meio, absorvido pelo estelionato, já que o dolo de obtenção de vantagem patrimonial era antecedente à conduta. A defesa dos condenados não foi localizada pela reportagem para comentar o caso.
Este caso ocorre em um contexto onde nove em cada dez moradores de São Paulo sofreram tentativas de golpes digitais em 2025, segundo pesquisa recente, demonstrando a diversidade de métodos utilizados por criminosos para explorar a vulnerabilidade das vítimas.