Estudo revela que risco de morte de motociclistas em cruzamentos com Faixa Azul mais que dobra em São Paulo
Uma pesquisa recente conduzida por especialistas da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Ceará (UFC) e organizações do terceiro setor ligadas à saúde pública aponta um dado alarmante: o risco de motociclistas morrerem em cruzamentos de vias com Faixa Azul é mais que o dobro do registrado em cruzamentos sem esse tipo de sinalização na capital paulista.
Política de segurança viária em questão
Implantada em janeiro de 2022 com a promessa de reduzir mortes no trânsito, a Faixa Azul é uma sinalização viária exclusiva para motos que ocupa pouco mais de um metro de largura ao longo de mais de 230 quilômetros de vias da cidade. O projeto completou quatro anos no último domingo (25), mas os dados analisados sugerem que a política não tem se mostrado eficaz do ponto de vista da segurança viária.
“A política da Faixa Azul pode ser muitas coisas, pode ser uma política de pertencimento, de organizar o trânsito, mas ela, evidentemente, da forma que foi implementada, ela não é uma política de segurança viária”, afirma Mateus Humberto, professor da USP e coordenador do estudo.
Metodologia rigorosa e resultados preocupantes
Para medir os efeitos da Faixa Azul, os pesquisadores adotaram uma metodologia semelhante à usada em testes de novos medicamentos. Na prática, foram comparadas vias com Faixa Azul a outras sem a sinalização, mas com características semelhantes — como número de pistas, volume de tráfego e perfil viário.
Por exemplo, a Avenida 23 de Maio foi comparada à Radial Leste. O objetivo era avaliar se, após a implantação da Faixa Azul, houve melhora diferente entre os dois grupos. Segundo os pesquisadores, em vários casos, a diferença foi nula — e, em outros, os indicadores de segurança pioraram significativamente.
Cruzamentos e excesso de velocidade: a combinação fatal
O estudo analisou especificamente onde os acidentes acontecem ao longo das vias: no meio da quadra ou em um raio de até 10 metros dos cruzamentos. Foi justamente nesses pontos que apareceu o dado mais preocupante: o número de acidentes fatais mais do que dobra em ruas com Faixa Azul.
De acordo com os especialistas, a velocidade elevada no trecho entre cruzamentos faz com que o motociclista chegue ao cruzamento — que já é uma área naturalmente mais conflituosa — em condições muito mais perigosas.
“Esse excesso de velocidade que acontece no meio da quadra acaba desembocando no cruzamento. O motociclista chega numa velocidade muito maior, e isso gera uma probabilidade maior de ocorrência de sinistros”, explica Ezequiel Dantas, diretor de dados da Vital Strategies.
Dados de velocidade revelam padrão alarmante
A velocidade foi analisada a partir de imagens captadas por drones. O levantamento mostra que, em vias com limite de 50 km/h e com Faixa Azul, 96% dos motociclistas trafegam acima da velocidade permitida. Em vias sem Faixa Azul, esse percentual também é alto, mas menor: 71%.
“Nas vias com Faixa Azul, o excesso de velocidade é muito mais drástico. Se a gente olha para o patamar de 50 km por hora, praticamente todo mundo está excedendo o limite”, afirma Dantas.
Relatos de motociclistas confirmam dinâmica de risco
Motociclistas que circulam diariamente pela cidade relatam que a dinâmica da Faixa Azul incentiva comportamentos de risco. “Ela é boa por um lado, ajuda na fluidez, mas muitos motociclistas não respeitam o limite. Quem quer andar dentro da velocidade da via acaba sendo empurrado, buzinado, colocado em risco”, diz Paulo Dias, motociclista operacional.
Números de mortes voltam a subir após breve queda
Segundo o estudo, 475 motociclistas morreram no trânsito da capital no ano passado — alta de quase 15% em relação a 2022, quando as Faixas Azuis começaram a ser implementadas. Em comparação com 2024, houve uma queda de pouco mais de 1%. O menor número de mortes foi registrado em 2023, com 402 óbitos.
Para quem depende da moto para trabalhar, a preocupação é diária. “A faixa é bem-vinda, mas precisa de muita responsabilidade. E falta fiscalização, esse é o X da questão”, afirma Paulo Dias.
Contraponto da administração municipal
Em nota, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) lamentou que o estudo não tenha comparado as mortes de motociclistas antes e depois da implementação da Faixa Azul nas vias onde a sinalização foi instalada. Segundo a administração municipal, nesses trechos, o número de óbitos caiu de 29 para 22 após a adoção da medida.
Ainda de acordo com a prefeitura, nos últimos quatro anos, a velocidade média dos motociclistas que circulam pela Faixa Azul foi de pouco mais de 49 quilômetros por hora. O plano da gestão municipal é instalar 400 quilômetros de Faixa Azul em toda a cidade até 2028.
Conclusões e recomendações dos pesquisadores
Os pesquisadores defendem que a política seja revista e que medidas de controle de velocidade e fiscalização sejam reforçadas, especialmente nos cruzamentos, para reduzir o número de mortes no trânsito da capital. A conclusão do estudo difere significativamente de um levantamento da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), de 2025, que havia apontado que a implantação da faixa azul em São Paulo resultou em uma redução de 47,2% nas mortes de motociclistas nos trechos onde a medida foi aplicada.
O debate sobre a eficácia da Faixa Azul continua, com especialistas alertando para a necessidade de uma abordagem mais abrangente de segurança viária que vá além da simples criação de faixas exclusivas.