Marido detalha negligência em hospital do Recife após esposa ficar em estado vegetativo
O médico Paulo Menezes, marido da servidora pública Camila Miranda Wanderley Nogueira de Menezes, que entrou em estado vegetativo após uma cirurgia considerada de baixo risco, compartilhou nas redes sociais os detalhes do grave quadro de saúde da esposa. A família relata que Camila sofreu uma parada cardíaca durante o procedimento e está há cinco meses sob cuidados intensivos, com perspectivas incertas de recuperação.
O sonho de família interrompido por suposta negligência
Em emocionado depoimento, Paulo Menezes expressou o desejo de que a esposa possa, ao menos, ter algum contato com os filhos e participar de suas vidas. "Meu objetivo aqui é que ela, pelo menos, consiga o mínimo que puder de ter contato com os filhos, de participar da vida dos filhos, do crescimento dos filhos, de opinar o que está certo, o que está errado com os filhos porque era o sonho de vida dela ter uma família", disse. Ele destacou que Camila sempre demonstrou forte desejo de constituir família, lembrando que, no segundo encontro do casal, ela já perguntou sobre planos de ter filhos. "E não é justo alguém por irresponsabilidade tirar isso dela", completou, referindo-se às suspeitas de negligência médica.
Cirurgia de rotina que se tornou uma tragédia
A cirurgia foi realizada no dia 27 de agosto de 2025, no Hospital Esperança, localizado no bairro da Ilha do Leite, na área central do Recife. O procedimento tinha como objetivo a retirada de uma hérnia e de uma pedra na vesícula, ambas consideradas intervenções simples pela equipe médica. Paulo explicou que o problema foi descoberto após exames de rotina e que a cirurgiã optou por operar as duas condições simultaneamente, prevendo alta hospitalar no mesmo dia. "Tanto é que ela iria ser internada no dia 27 pela manhã e, no mesmo dia, à noite, já sairia do hospital, de alta. A gente foi um dia antes. Ela estava muito nervosa com essa cirurgia, não sei por quê. Tanto que ela não dormiu", contou.
Família denuncia erros graves e busca responsabilização
A família denunciou a equipe médica por negligência ao Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe). Em resposta, o Hospital Esperança informou que os profissionais foram escolhidos pela própria paciente e que prestou "todo o suporte necessário assim que tomou conhecimento da intercorrência". No entanto, Paulo relatou uma série de situações incomuns que começaram a ser percebidas ainda antes do início do procedimento.
Ele estranhou a ausência da anestesista no quarto antes da cirurgia e a forma como foi informado sobre o andamento do procedimento horas depois. "Eu já estranhei um pouquinho, porque geralmente, quando se vai para a cirurgia, não vai só a médica ao quarto, a anestesista também vai, mas ela não apareceu", disse. Por volta do meio-dia, ao ser chamado pela médica, ele já suspeitou que algo havia dado errado. "Quando eu desci, que a médica me chamou para perto do elevador, eu [pensei]: 'coisa boa não foi'", relatou.
Detalhes alarmantes do monitor multiparamétrico
De acordo com Paulo, a médica informou que Camila sofreu uma parada cardiorrespiratória que durou cerca de 15 minutos, mas que a equipe conseguiu reanimá-la. Diante da gravidade, a família decidiu investigar e acessou os registros do monitor multiparamétrico. "Para a nossa surpresa, a partir da indução anestésica, analisando esse monitor, já notou-se, que desde a indução anestésica, o pulmão não estava sendo ventilado", detalhou.
Os registros indicariam que a cirurgia prosseguiu mesmo após mais de seis minutos de apneia, a interrupção temporária e involuntária da respiração. No prontuário médico, a cirurgiã teria registrado que o procedimento começou sem intercorrências e com a paciente estável. "Quando a cirurgiã chegou, já estava no nível alto para apneia, aí começou o segundo bip, que era o alarme do oxigênio que estava baixando, tem nível baixo, médio e alto, e nada de ninguém fazer nada. Até que o coração, por falta de oxigênio, começou a diminuir sua frequência cardíaca para poupar oxigênio. Diminuiu e chegou a 40. Foi quando o bip começou a alarmar alto e, aí então, teve a parada cardíaca", afirmou.
Questionamentos sobre a conclusão da cirurgia e atuação da equipe
Paulo também questiona o registro médico, afirmando que a cirurgia foi concluída mesmo com a paciente em parada cardiorrespiratória. "A cirurgiã terminou a cirurgia com minha mulher em parada cardíaca. E ela colocou no prontuário que a cirurgia transcorreu sem intercorrência. Ela estava em apneia, diminuiu o oxigênio, diminuiu a frequência cardíaca, entrou em parada cardíaca. Se nada disso é considerado uma intercorrência por parte dela, eu não sei o que é", disse.
Segundo ele, apenas após a conclusão da cirurgia da vesícula e no momento em que a equipe se preparava para iniciar o procedimento de hérnia, perceberam que Camila estava cianótica, com coloração azulada da pele devido à parada cardiorrespiratória. Foi então que iniciaram as manobras de reanimação. A família ainda questiona a atuação da anestesista, alegando que ela tinha poucos meses de formada e parecia não saber como agir. "A anestesista — que a gente está tentando descobrir porque foi ela escalada, já que Camila conversou com outra anestesista, que fez o pré-operatório anestésico —, ficou atônita, tinha poucos meses de formada e não sabia o que fazer", relatou.
Novos erros no deslocamento para a UTI
Durante o deslocamento de Camila do bloco cirúrgico para a UTI, novos erros teriam ocorrido, segundo a avaliação da família. "Ela não foi levada com respirador, como deveria. A anestesista ficou usando o ambu, que é um aparelho que você aperta e vai mandando oxigênio para o paciente, sendo que ela era com uma mão no ambu e outra mão no celular. E aí chega uma hora que ela solta o ambu e fica só no celular", afirmou Paulo, destacando mais uma falha no atendimento.
Estado de saúde atual e busca por reabilitação
No primeiro mês após a cirurgia, Paulo se dedicou integralmente aos cuidados da esposa, que permaneceu internada na UTI. Com a estabilização do quadro, Camila foi transferida para uma semi-UTI, onde permanece atualmente. "Ela não saiu do respirador, hoje a gente está focando o máximo possível em exercícios de reabilitação, fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, para poder tentar reabilitar Camila ao máximo possível", afirmou.
O principal objetivo da família é possibilitar que Camila volte a ter algum nível de interação com os filhos e participe da vida familiar, ainda que de forma limitada. "No que depender de mim, do pai dela e de toda a família, a gente vai tentar reabilitar a Camila o máximo que puder. Se Deus quiser, ela vai voltar para a gente. Pode ser que não volte como antes, mas se voltar 60% ou 70%, minha Camilinha, eu estou satisfeitíssimo", contou.
Ações judiciais em andamento
Em dezembro do ano passado, a defesa da família de Camila, representada pelo advogado Paulo Maia, entrou com uma representação no Cremepe solicitando o afastamento das cirurgiãs Clarissa Guedes e Daniele Teti e da anestesista Mariana Parahyba durante a investigação de possível negligência médica. O Cremepe informou que as denúncias tramitam sob sigilo processual, conforme determina o Código de Processo Ético-Profissional.
Além disso, o advogado Paulo Maia informou que os parentes de Camila também vão ingressar com uma ação criminal na Justiça contra as três profissionais que participaram da cirurgia. "A família, na verdade, está entrando com um processo criminal contra as médicas porque entenderam, na visão deles, que teve um crime ali na Justiça. A gente está falando aqui de contrato de crime contra a vida. [...] Fazendo isso aí, principalmente, vai evitar que casos como o de Camila aconteçam novamente", declarou, reforçando a busca por justiça e prevenção de futuros incidentes.