Paciente recebe alta após 227 dias internada por chikungunya em hospital de Umuarama
Conceição Aparecida, uma idosa de 67 anos, recebeu alta hospitalar na última quinta-feira (29) após passar incríveis 227 dias internada em um hospital de Umuarama, no noroeste do Paraná. Este longo período de internação, que incluiu 213 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), marca um recorde na história de 48 anos da instituição médica.
Diagnóstico de uma doença rara
A internação prolongada foi necessária devido a um quadro grave de Encefalite de Bickerstaff, uma doença neurológica autoimune rara que foi desencadeada após a paciente contrair chikungunya. Esta arbovirose é transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti e, em casos excepcionais como este, pode evoluir para complicações neuroinvasivas severas.
Durante os sete meses de tratamento, Conceição enfrentou momentos críticos, incluindo 11 dias em coma. O primeiro sinal de recuperação da consciência ocorreu quando seu filho, Moacyr Gomes Brito, pediu que ela mexesse a cabeça se estivesse ouvindo. "É um milagre pra gente. Não tem como falar que não é um milagre. Ela sempre foi uma guerreira", emocionou-se Moacyr em entrevista à RPC.
Trajetória da internação e sintomas iniciais
Os primeiros sintomas surgiram em junho de 2025, quando Conceição apresentou sinais semelhantes aos da dengue. Após uma breve melhora, em 18 de junho, ela foi levada ao hospital de Iporã com formigamento nas mãos e pés. Os exames iniciais descartaram AVC, mas não forneceram um diagnóstico conclusivo.
Preocupados, os filhos se revezaram nos cuidados. Na madrugada de 19 de junho, um deles encontrou a mãe sem reações e movimentos. Imediatamente, ela foi encaminhada ao Hospital Cemil em Umuarama, onde foi entubada e estabilizada na UTI.
Complicações neurológicas graves
De acordo com a médica pneumologista Karina Farah, que acompanhou o caso, Conceição desenvolveu sintomas gravíssimos de encefalite:
- Tetraplegia
- Alterações oculares
- Rebaixamento do nível de consciência
"Ela é rara. A gente não vê com frequência. Dos casos que a gente vê da dengue e outras infecções virais, já não é comum evoluir para a síndrome de Guillain-Barré, mas muito menos frequente ainda evoluir para a Encefalite de Bickerstaff", explicou a especialista, destacando a necessidade de atenção a sintomas neurológicos em pacientes com arboviroses.
Longo processo de recuperação
A recuperação de Conceição foi lenta e gradual:
- Entre julho e agosto: abriu os olhos pela primeira vez
- Entre agosto e setembro: começou a conversar e reconhecer familiares
- Entre setembro e outubro: recuperou movimentos do tronco, braços e pernas
No final de 2025, a paciente ainda enfrentou infecções e uma parada cardiorrespiratória, necessitando de múltiplos antibióticos. Somente em 12 de janeiro deste ano seu estado melhorou o suficiente para deixar a UTI, culminando na alta definitiva no dia 29.
Contexto epidemiológico no Paraná
O caso de Conceição ocorre em um contexto preocupante de chikungunya no estado. Em 2025, Iporã registrou 55 casos da doença, representando 80% dos 68 casos confirmados pela 12ª Regional de Saúde, que abrange 24 municípios paranaenses. No mesmo ano, o Paraná confirmou 6.090 casos de chikungunya em todo o território estadual.
O Ministério da Saúde alerta que o vírus chikungunya pode causar diversas doenças neuroinvasivas, incluindo além da encefalite:
- Mielite
- Meningoencefalite
- Síndrome de Guillain-Barré
- Síndrome cerebelar
- Paresias, paralisias e neuropatias
A alta de Conceição foi celebrada com uma festa nos corredores do Hospital Cemil, marcando o fim de uma jornada médica extraordinária que testemunhou a resiliência humana diante de complicações raras de uma doença endêmica no Brasil.