Névoa mental na menopausa: mulheres compartilham estratégias e enfrentam estigma
Névoa mental na menopausa: estratégias e estigma

Em um relato pessoal que se transformou em conversa nacional, a editora de tecnologia Zoe Kleinman compartilhou sua experiência com a névoa mental durante a perimenopausa. O que começou como uma simples postagem no LinkedIn sobre precisar de anotações durante uma transmissão ao vivo gerou quase 400 comentários, dezenas de mensagens privadas e centenas de interações, revelando um tabu ainda persistente.

Estratégias de enfrentamento no ambiente profissional

Muitas mulheres responderam à publicação compartilhando suas próprias táticas para lidar com os sintomas no trabalho. Algumas mantêm ventiladores sobre as mesas para enfrentar as ondas de calor características desse período. Outras, como a própria Kleinman, recorrem a lembretes escritos para si mesmas, estratégias essenciais para contornar a névoa mental durante reuniões importantes e apresentações profissionais.

Essas adaptações mostram a criatividade e resiliência feminina, mas também destacam um problema estrutural: a necessidade de esconder ou compensar sintomas que podem ser debilitantes. Fiona Clark, jornalista e autora do livro Menowars, descreve uma jornada comum: "No começo, há confusão e negação, depois vem o luto e, depois, a aceitação. Mas, se você está escondendo ou mascarando, você não está buscando a ajuda de que precisa."

O custo do mascaramento e riscos de burnout

Fionnuala Barton, médica generalista e especialista em menopausa, alerta sobre as consequências do esforço constante para ocultar sintomas: "A energia gasta em mascarar ou compensar os desafios enfrentados pelas mulheres frequentemente esgota ainda mais suas reservas e reduz os limites para o esgotamento." Segundo ela, essa dinâmica pode aumentar significativamente o risco de burnout entre mulheres nessa fase da vida.

Os relatos recebidos por Kleinman ilustram a diversidade de experiências. Uma mulher descreveu como a queda de estrogênio provocou ressecamento vaginal tão intenso que tornava doloroso caminhar. Outra revelou desenvolver fraqueza na bexiga quase "da noite para o dia", afetando sua mobilidade e confiança. Uma terceira admitiu evitar socializações por se sentir incapaz de acompanhar conversas quando dominada pela névoa mental.

Impacto profissional e mudanças legislativas

No Reino Unido, onde se concentra a reportagem, estima-se que existam 4 milhões de mulheres entre 45 e 55 anos empregadas - justamente a faixa etária mais comum para a menopausa. Jo Brewis, professora da The Open University Business School, explica que mascarar sintomas no trabalho gera o que economistas chamam de "custos na margem intensiva" - um esforço extra que sobrecarrega as pessoas afetadas.

As consequências podem ser graves: uma em cada dez mulheres entre 40 e 55 anos que trabalham durante a menopausa já deixou um emprego por causa dos sintomas, segundo pesquisa da The Fawcett Society. Brewis observa que esse peso frequentemente se manifesta através de menor visibilidade profissional: "Não se candidatam a promoções ou migram para cargos de menor status, geralmente com menor salário, para conseguir lidar com a situação."

Algumas mudanças positivas já estão em curso. No Reino Unido, exames de rastreamento da menopausa serão incorporados às consultas do NHS para mulheres acima de 40 anos. Além disso, o Employment Relations Bill determina que empregadores com 250 ou mais funcionários devem ter "planos de ação sobre menopausa" a partir de abril de 2027, com adoção voluntária já neste ano.

Diferentes perspectivas culturais

Enquanto no Ocidente predomina uma visão negativa da menopausa, outras culturas oferecem perspectivas mais positivas. No Japão, a palavra konenki significa renovação e energia, sendo a menopausa às vezes descrita como uma "segunda primavera". Megan Arnot, antropóloga da University College London, destaque: "Em muitas comunidades indígenas, incluindo culturas nativo-americanas e maias, a menopausa é vista como uma transição para a sabedoria e a liderança."

Melissa Melby, professora de Antropologia na Universidade de Delaware, critica a abordagem ocidental: "Geralmente, damos às mulheres listas de sintomas negativos. Problemas. Nós nunca as perguntamos: houve alguma mudança durante esse período que tenha sido positiva para você?" Sua experiência no Japão a deixou com "uma sensação de potencial e esperança para a próxima fase da vida".

Mercado em expansão e necessidade de apoio genuíno

O mercado de produtos e serviços relacionados à menopausa foi estimado em mais de US$ 17 bilhões em 2024, com projeção de alcançar US$ 24 bilhões até 2030. Apesar dessa oferta crescente, Brewis alerta que os empregadores precisam oferecer suporte adequado: "Os gerentes precisam de treinamento específico para apoiar suas equipes, conduzindo conversas sensíveis e definindo ajustes razoáveis."

Ela acrescenta que identificar claramente a menopausa como motivo legítimo de ausência é crucial, mas ressalta: "Algumas pessoas nunca vão querer revelar seu status menopausal no trabalho, não importa quão compassiva ou apoiadora seja a organização, e isso é absolutamente prerrogativa delas."

Buscando o entusiasmo pós-menopausa

A antropóloga Margaret Mead cunhou o termo "post-menopausal zest" (entusiasmo pós-menopausa) há mais de 70 anos, declarando na década de 1950: "Não há poder maior no mundo do que o entusiasmo de uma mulher pós-menopausa." Para Kleinman, essa perspectiva positiva se tornou um alvo, assim como a descoberta reconfortante de não estar sozinha em sua experiência.

Apesar dos avanços, uma pesquisa da University College London com cerca de 1.600 mulheres revelou que mais de 75% se sentem pouco informadas sobre a menopausa. O NHS lista 34 sintomas possíveis, desde névoa mental e ondas de calor até alterações de humor e secura vaginal, destacando a importância de abordagens personalizadas e acompanhamento médico regular.